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domingo, 22 de janeiro de 2012

Eu sonhava.

Eu sonhava.
Eu fechava os olhos e sonhava, sem que você percebesse.
Sem que você percebesse, eu abria os olhos e sonhava o mesmo sonho.
Eu sonhava o mesmo sonho noite após noite, antes de dormir.
Antes de dormir você me beijava, e me prendia no seu abraço.
Você me prendia no seu abraço e então eu era livre para voar.
Eu era livre para voar, então eu fechava os olhos e pulava.
Eu pulava no abismo do sonho e não caía, eu voava.
Eu voava de olhos abertos, e sonhava.
Eu sonhava o mesmo sonho, no qual você me beijava e me prendia no seu abraço,
sem nunca mais me soltar.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Calo por amor.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

Tem frases que escrevo e que me perseguem. É sério: eu as escrevo, penso que me livrei, e, de repente, a frase ressurge como se fosse a primeira vez que... o que? Que a escrevi, que a ouvi, que a pensei? Não sei. Frases assim são como pedaços de real que passam por mim, me cortam, mas que não são minhas. Elas me atravessam e deixam essa marca que não cicatriza nunca, que sangra a cada vez que penso, que ouço, que escrevo.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

Como assim calar por não poder falar tudo? É justamente por não conseguir falar tudo que eu falo. Falo, penso, escrevo, defino, grito, tudo tentando dizer o máximo que eu puder. Amor? Aí mesmo é que eu não me calo. Praticamente tudo que eu falo tem a ver com amor. Escrevo amor amor amor amor milhares de vezes tentando alcançar, entender, descobrir, saber o que é esse tal de amor que tanto me perturba.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

Curiosamente lembrei agora de um dos primeiros posts do meu blog em que eu reclamava me calar por não saber falar de amor. E respondi à minha reclamação dizendo que o problema é que eu só falava do que sabia e organizava, e que era impossível organizar o amor. Parece-me que, daí em diante, resolvi que ia falar sobre amor até aprender. Então escrevi o amor em prosa e poesia, realidade e fantasia, felicidade e agonia, e ainda assim não entendi. Não entendo, não aprendo, continuo não sabendo.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

E então, agora, esse calar. Que depois de tantas repetições (na minha cabeça e na tela do computador) me atinge de outra forma. É um calar diferente do calar por não saber ou do calar por conformismo de que não entenderei jamais o amor. Calei, no dia em que escrevi essa frase pela primeira vez, por me submeter ao fato de que não poderia explicar, e nem dizer tudo sobre o amor. Que mesmo tendo muito a dizer, mesmo tendo todas as palavras existentes e inventadas à minha disposição, ainda assim sobraria a falta. A falta, que é o que faz do amor, amor.

Calo-me agora. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que digo quando amo. E é por isso que amo.


*Texto originalmente publicado aqui.


sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Inteligencia e/ou amor

E então eu tenho quatro textos rascunhados há mais de dois meses sem conseguir terminá-los. Volta e meia retorno a eles, apago a metade, escrevo mais um tanto e de repente empaco. O que eles têm em comum além do fato de que eu não consigo colocar-lhes um ponto final? São todos textos "inteligentes". Textos sobre cultura, psicanálise, crônicas sobre o social. E aí hoje li um texto da Inês Pedrosa falando sobre a crença no amor, o segundo que li essa semana abordando o tema, e pensei: que saudade de escrever sobre o amor. Eu sou dessas pessoas que, como a Inês, acredita no amor como outros acreditam em deuses e santos. Eu adoro estar amando, não tenho problemas em me apaixonar e não me retraio por medo de sofrer. Mas, ao contrário do que possa parecer, isso não é uma coisa bonita e altruísta, nem mesmo corajosa. É apenas como as coisas são. Porém, como boa neurótica, eu não gosto de aceitar as coisas como elas são. Então, dentro do meu sintoma, crio uma dicotomia: ou sou inteligente, ou amo. E passo a vida, e perco a vida, buscando equilibrar duas coisas que só são opostas por invenção minha. A verdade é que eu realmente adoro falar de amor, ler sobre o amor, pensar, não entender, me irritar, ficar feliz, tudo ao mesmo tempo e sem ordem alguma. E também adoro ler textos de Lacan dos quais entendo pouquíssimo, passar horas conversando sobre as feridas narcísicas da humanidade ou explicando porque acho que o saber é hoje o deus mais cultuado no mundo. Só que, por algum motivo, é difícil pra mim aceitar que não são duas coisas, ou que até são, mas ambas estão misturadas em mim. E que o que escrevo vai surgir de acordo com o que acontecer na minha vida, e não porque eu decidi que já escrevi muita coisa romântica e está na hora de ser mais intelectual. Até acredito que para outras pessoas funcione assim, mas comigo não. Outra coisa que preciso aceitar: minha escrita, pelo menos aquela que me parece afetar os outros, não é racional. Meus textos "bons" são escritos no ímpeto, com algum trabalho depois, claro, mas o corpo tem que vir todo junto, de uma vez, senão nem adianta continuar. Por isso esse texto. Porque hoje, enquanto eu tentava relaxar para terminar algum dos outros, eu li sobre o amor, e o amor mais uma vez se escreveu, e tive a sensação que precisava escrever isso, preciso parar de lutar contra um pedaço de mim, para que todos os meus pedaços possam existir. Ao tentar eliminar um, elimino a mim, que sou todos esses pedaços desconexos, disformes e desencaixados que, na melhor das hipóteses, se deslocam e me fazem não parar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Abro os olhos, mas continuo sem enxergar. Não me acho onde procuro, e só me encontro comigo lá onde nunca estive. No segundo seguinte o lá não é mais lá, mudou de lugar ou fui que mudei? Não sei. Nada, não sei nada, não sei nadar e me sinto buscando ar, quase me afogando no mar de sentimentos que me inunda o peito. Busco as palavras, agarro-me a elas como se fossem barcos salva-vidas, como se pudessem me resgatar e devolver-me à terra firme. Ilusão, a terra da vida nunca é firme. Não adianta fazer planos, o terreno em que caminho é acidentado demais, todo passo pode ser em falso, e cada queda inevitável é a chance de um novo começo. Levanto, pé ante pé, fé não sei bem em quê. No sujeito, no desejo, na distração que leva ao ato e a atadura que estanca o sangue me dá força pra continuar. Sigo. Não por saber aonde ir, nem sequer por querer chegar, mas porque... Por quê mesmo? Não importa, não sei se há motivo, continuo apenas, caminhando a duras penas, penas perdidas no último voo, penas que começam a nascer mais uma vez, talvez por isso eu siga, porque há quem diga que a vida só acontece uma vez e prefiro me perder lá do que só me encontrar, a sós, aqui.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ódio?

Eu só sei escrever sobre amor. Sou uma pessoa doce, melosa e brega. Tudo que escrevo cai nesse mesmo tema. Será que é isso mesmo? Na verdade sou muito menos doce do que gostaria, ou do que acho que deveria ser. Sou chata, intolerante, e altamente crítica. E não só amo. Eu odeio, fico irritadíssima e sei ser muito má. Só que acho isso ruim, então tento disfarçar. Por exemplo, estava agora mesmo irritada por sentir que não tenho escrito nada de novo, e ao mesmo tempo dizendo que não consigo me imaginar escrevendo outra coisa. Quando me defino assim, essa pessoa que só fala de amor, acabo me limitando. Se eu sinto raiva, se odeio, por que não falar disso também?

Então me veio a seguinte formulação: o ódio movimenta o mundo tanto quanto o amor. Dizem que a fé move montanhas, mas mesmo os religiosos são altamente influenciados pelo ódio. Todo o terrorismo atual e as guerras “santas” da história estão aí para provar. Parece loucura pensar que diferenças provoquem ódio e que um sentimento gere tanta destruição. Talvez por isso a dificuldade de falar de ódio, e minha resistência até mesmo em pensar nisso. Mas o fato é que todos nós odiamos. E como há infinitas formas de amar, também há um sem número de maneiras de odiar. Acho que aí reside a principal questão: o vilão não é o ódio, é o que fazemos dele. Por exemplo, eu estava aqui agora muito irritada. Com raiva, odiando um monte de coisas, pessoas, e até a mim mesma. E daí eu comecei a escrever. E, enquanto escrevia, as palavras correndo, comecei a pensar em coisas novas, ficar curiosa comigo mesma, com as minhas acepções acerca do ódio e de outros sentimentos ruins. Então tão repentinamente como me tomou, o ódio me deixou. Claro que nem sempre é assim, e não é possível fazer disso uma fórmula: quando odiar, escreva. O que aconteceu agora comigo foi apenas uma das possibilidades de lidar com o ódio. Mas basta uma para mostrar que não é preciso temer o ódio, a raiva ou qualquer sentimento. Ocorre-me agora que o medo é inclusive um fator primordial do ódio. Quantos odeiam o diferente por terem medo dele? Do que eu tenho medo quando evito falar de sentimentos e sensações que julgo errados? Temo me desconhecer, temo que ao trabalhar com significantes novos eu me desencontre de quem acho que sou. Só que agora, depois de escrever essas linhas que ainda nem sei ao certo que efeito terão em mim, tenho a certeza de que foi bom me desencontrar. Porque só assim me encontrei nova. E saí do castelo de conto de fadas que eu mesma criara, mas que mais do que me proteger, me prendia.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não são assim todos os finais?

“É impossível viver e pensar ao mesmo tempo.” (Gonçalo M. Tavares, “O Homem ou é tonto ou é mulher")

"O homem no meio da escada hesitava há vários dias entre subir e descer. Os anos passavam e o homem continuava a hesitar: subo ou desço? Até que certo dia a escada caiu." (Gonçalo M. Tavares, “O Senhor Brecht”)

Esses dois trechos do Gonçalo Tavares têm me feito pensar: quanto tempo nós passamos – e perdemos – pensando? Planejando, tentando entender, buscando acertar? Eu sei que eu perco muita vida assim. Tudo que me acontece eu tento enquadrar em algum lugar, tento organizar dentro de um plano de vida que eu acho que deveria seguir. Tenho medo do erro, medo da impossibilidade de voltar atrás. Medo de perder. Só que esse tanto de medo acaba me paralisando tanto que perco a chance de viver. Continuo sem poder voltar atrás e o que é pior: sem ir para frente, ou nem mesmo dar um passinho para o lado. O pensamento é uma prisão que crio tentando proteger-me do imprevisível. Mas não é possível, o imprevisível, o acaso, o incontrolável, tudo isso é parte inexorável da experiência humana. Mas mesmo sabendo disso, não adianta: continuo tentando me esquivar. Fujo tanto que acabo parada no mesmo lugar. E sempre que ouço alguém como Gonçalo falando me assusto: como é possível viver assim? Simplesmente fazendo o que tem que ser feito, escrevendo o que tem que ser escrito, falando o que lhe vem à cabeça e só aí se encontrando com suas próprias decisões? Admiro muito quem consegue agir assim. Eu estou sempre atrás de certezas. Atrás de garantias. Atrás. Estou atrás de mim, atrás das dúvidas e dívidas com as quais não quero arcar. Mas a vida sempre cobra seu preço. Só posso viver e ser feliz às minhas custas. Se evito pagar o preço do erro, o preço do risco, sou cobrada pela procrastinação e o tempo que passa e não arrefece.

Por isso, por hoje, tentei deixar-me ir pela fala de Gonçalo. Escrever o que me atravessa sem tentar organizar o fim, por mais que isso doa. E me parece agora um final abrupto, mas penso: não são assim todos os finais?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Luto

Luto para escrever esse texto. Reluto por não querer escrever as palavras que têm me escrito. Temo dizer o que não quero e, talvez, o que quero também. Teimo em dizer que não sei nada. Mas luto, reluto, temo e teimo por não conseguir entrar em acordo comigo. Parte de mim está com raiva, quer que essa história acabe e a vida siga. Outra parte quer entender, ainda, os pormenores, detalhes (in)significantes que fizeram nós, mas não deram laço. E há também a parte que não liga pra raiva, não quer entender nada, e só quer viver o que resta de amor, viver o amor que é sempre resto. E há ainda eu. Que não consigo escrever as frases acima sem encher os olhos de lágrimas. Que odeio não ser capaz de dar fim a confusão. Que entendo, não entendo, e odeio as duas coisas. É, parece que há muito ódio por aqui. Mas é que só quem ama é capaz de odiar. E eu amo, muito. Todas as minhas partes te amam e te odeiam ao mesmo tempo. Todas sentem você. Então teimo. Teimo em dizer que te odeio. Temo dizer que te amo. Reluto em dizer por que luto. Luto para não viver o luto. Luto para não viver sem você.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Impensável

“Eu sei muito bem o que você faria.”

Ele disse isso e eu ri. Nem eu sei o que faria. É claro que digo que sei, que agiria de tal modo, que nunca faria tal coisa, que sempre faço assim. Mas digo isso pra me acalmar. Gosto de fingir que antevejo exatamente como me comportarei em qualquer situação. Perco horas, dias, anos de vida assim: imaginando, prevendo, decidindo quem eu sou. Só que aí a vida chega, cheia de acasos e situações imprevisíveis. Ou situações que previ mil vezes, todos os detalhes como imaginei, tudo encaixando perfeitamente. E aí eu. Um eu que não sei que sou, vai lá e responde de forma inesperada. Uma palavra fora do script sai da minha boca. Um gesto impensável me escapa. Impensável: palavra das mais assustadoras pra mim. Eu que me escondo atrás de pensamentos, tentando não ter que me deparar com a minha própria imprevisibilidade. Porque eu sei que a vida é imprevisível e todo esse blá blá blá que eu mesma repito incansavelmente. Mas o que me assusta não é isso. Meu problema não é que aconteça algo fora do previsto, mas que eu reaja de um jeito diferente. Por exemplo, acaba de me ocorrer algo tão estranho que quase ignorei, mas vou escrever. Pensei: quanto mais tento prever e antecipar, mais me apavoro ao reagir de forma diferente. Sem padrões previamente estabelecidos, posso ter qualquer atitude que não estarei me contradizendo. Quase sinto alívio. Por quase um segundo. E aí penso que, para isso, terei que parar de pensar. E viver. Não o futuro ou o passado, não analisando o que já foi para preparar-me para o que virá, mas o agora. Chego a rir do clichê, “viver o presente”. Mas eu sou feita de clichês. E também não sou. Eu penso demais, fujo, me escondo, mas também ajo sem pensar, fico, me exponho. Eu sou todas essas contradições, e outras mil. E por isso vou agir de forma inesperada muitas vezes. E vou agir exatamente como ensaiei em outras tantas. Por isso, vou continuar pensando, planejando, ensaiando. Mas, a despeito de mim, às vezes, me pegarei vivendo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Verdade?

Desde o dia em que assisti o filme “O Bigode”, de Emmanuel Carrère, tenho pensado sobre a verdade. No filme, passamos o tempo inteiro sem saber qual é a verdade de fato, e nem ao final dele essa resposta é dada. Afinal, o que é a verdade? Ela existe? A verdade só tem esse estatuto se nós o damos. O que é verdade para mim pode não ser para você. E isso não quer dizer que um dos dois esteja mentindo. Acontece que não há nada que envolva o humano que seja objetivo. Tudo é sempre influenciado pela nossa percepção, pelo que acreditamos, pelo que sabemos, e, para complicar ainda mais, pelo que não sabemos também. Nosso inconsciente tem papel de protagonista nas nossas verdades e mentiras. Por isso sempre que mentimos dizemos muito de nós. Qual foi a história escolhida? A desculpa dada? O que omitimos? Tudo isso tem ligação com algo de nós que desconhecemos.

Outro dia escrevi sobre como calar não era mais seguro do que falar. Pois mentir também não é mais seguro, nem mais perigoso. Contar, seja o que for, sempre cria laços. Tudo que dizemos e que nos é dito pode ser falso ou verdadeiro, pode inclusive ser verdadeiro quando foi contado a primeira vez e já não ser mais da segunda vez. Tudo pode ser falseado ou tornar-se verdade. Então essa verdade verdadeira que muitas vezes buscamos é utópica. A imparcialidade é uma utopia, tudo que diz respeito ao humano é arbitrário.

Sempre que alguém lhe conta algo você tem duas alternativas: acreditar ou não. Se formos checar a cada vez os fatos, buscar outras fontes, tentar fazer com que a pessoa seja “pega na mentira”, quem fica preso somos nós. O que importa é o discurso, não o conteúdo. E, se criar uma ficção é fácil, mantê-la não é, e tudo que for feito na tentativa de sustentar essa “mentira” pode dizer mais que a verdade não dita.

Já ouvi diversas vezes que sou muito crédula. E que tanta credulidade seria incompatível com uma pessoa inteligente. Discordo. Entender que o mais importante é dizer, e não a veracidade do dito, é algo que só vem da sabedoria de que não se pode saber tudo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Fecho-me com cadeados de silêncio.

Muitas vezes calo por medo. Medo de não saber o que falar, de falar e me arrepender, de falar errado. Mas calar não é mais seguro do que falar. Calar e não fazer tem tantos efeitos quanto falar e fazer. Basta nascer para que algo se ponha em movimento e não termine nunca, não importa quantos anos passem. O que falamos e calamos, fazemos ou deixamos de fazer, continua acontecendo em nós e nos outros por muito mais tempo do que gostaríamos ou temos intenção, ou mesmo muito além da nossa existência física. Nossos efeitos são para além de nós, a inércia desencadeada por nossas atitudes e palavras é contínua e imprevisível. Ao começar esse texto não tenho como saber onde ele me levará. E, se publicado, passará a tocar não sei quantas pessoas, das maneiras mais diferentes imagináveis e inimagináveis, e não tenho controle algum sobre isso. Por isso calar parece mais seguro. Mas é apenas ilusão. Não falar o que preciso é tão ou mais perigoso. As palavras ficam entaladas e perco a capacidade de respirar. As palavras precisam ser ditas para que o mundo siga, para que haja a chance de algo além da repetição contínua. Mas é justamente isso que temo: o novo, do qual nunca sei. E tento então evitá-lo não fazendo nada. Mas fazer nada é fazer. É evitar riscos de perder, mas não ter a chance de ganhar. Fazer nada, falar nada, é encher ainda mais de vazio essa existência esburacada que é a minha. E há momentos em que o vazio parece transbordar de letras e atos, sonhos e fatos, que existem na minha cabeça e imploram para serem tornados reais, para existirem no mundo, para desempenharem sua tarefa de tocar os outros, de desencadear o que está trancado. Fecho-me com cadeados de silêncio. Calo, por saber que as palavras são como chaves: quando ditas abrem portas. E não sei o que essas portas encerram. Que segredos estarão escondidos no silêncio? Aqui, descobri um: calo por medo. E, agora descoberto, não posso mais ignorá-lo. Agora exposto, não posso mais desviar o olhar. Ali está meu silêncio, que fala muito, me olha e diz: vai recuar mais uma vez?
Quero recuar. Retroceder, retornar, desfazer. Repetir. Mas já não posso. Já falei, já escrevi, e as palavras me constrangem à atitude. Falo, então. Escrevo. E espero agora as consequências do que iniciei aqui, e que terminará muito além do fim do silêncio que me fez começar.

sábado, 16 de julho de 2011

Ou é ou não é.

“Você anda bem feliz, né?”
Li essa frase e me assustei. A felicidade me assusta. Sempre me assustou. Temo tudo que não pode ser analisado, entendido e explicado, e a felicidade não se presta à medição alguma. Ocorre-me agora que o amor também não. No entanto, eu me considero uma pessoa romântica até demais. Mas se for sincera, sincera mesmo, aquela verdade nossa que nem conhecemos direito, teria que dizer que tenho também medo do amor. E, o que é pior, não tenho só medo que dê errado: tenho medo que dê certo, também. Aliás, certo e errado são conceitos que tem me tomado muito nos últimos dias. Porque eu acho que faço tudo errado, principalmente quando amo. Aceito o que não devia, falo o que não podia, calo o que teria que dizer. Mas todos esses “devia, podia, teria” são racionalizações. São idéias e ideais que uso como se fossem tijolos e cimento necessários para construir. Um muro ou uma casa, não sei. Não sei nem se construo para me proteger ou para me prender. Acho que as duas coisas. Construo pensando que estou me protegendo, quando na verdade estou me prendendo. Afinal, proteger-me do que? Da dor, do fim, do não-saber? Mas há vida sem isso? Fujo da falta de sentido tanto quanto do excesso de sentimento. E escrevo muita besteira tentando entender e explicar. Excesso de sentimento, desde quando isso existe? Não se ama muito ou pouco. Ou ama ou não ama, e amando há todas as constantes inconstâncias de sentimento: dentro do amor cabe quase tudo, e percebo agora que cabe o medo também. O medo que mata o amor é o que está fora dele. Do lado de dentro, o medo é só mais um dos milhares de sentimentos que fazem do amor, amor. Sentimentos ruins, bons, certos e errados. Não há quantificação nem qualificação para o amor. Ou é ou não é. É. Amo. Por isso faço tudo errado, por amor. E, por amor, tudo dá certo.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Precipício, príncipe, princípio.

Há momentos em que a minha falta de controle me assusta tanto que tenho vontade de ficar parada, muda, como se assim pudesse evitar qualquer passo em falso. É difícil aceitar que fazer nada tem tantas implicações quanto fazer alguma coisa. Fazer nada, calar, não escolher, implica em continuar, repetir, manter o padrão, e isso costuma me acalmar - mesmo quando o padrão é horrível.
É muito mais fácil lidar com uma certeza ruim do que com uma imprevisibilidade qualquer. Escrevo isso e acho um absurdo, e que é claro que não é assim. Mas é. Pelo menos para mim, na maior parte do tempo. Sinto como se minha vida pudesse ser vivida dentro da minha cabeça. Então, de repente, alguma coisa me empurra e me tira do torpor. Por exemplo, um ato falho. Ontem ia escrever precipício e escrevi príncipe. Desde então essa troca de palavras tem me invadido - é exatamente isso que sinto, uma invasão. Qualquer ato não planejado, seja uma palavra fora do lugar, uma atitude inesperada, minha ou do outro, me assalta e sinto a perda daquele controle imaginário a cada vez.
Era de esperar que a essa altura eu já tivesse deixado esse controle ilusório de lado, já tive mais do que provas de que não é possível controlar a vida. Algumas vezes foram boas surpresas, outras imprevistos difíceis, mas nunca pude evitá-los. A única possibilidade que me resta é lidar com o que me acontece da forma que me for possível. Mas não me conformo. Acho pouco. Quando digo que a inteligência é um problema muitas vezes riem de mim, mas realmente ela me atrapalha, e muito. Por conseguir resolver tudo em teoria, acredito que deveria ser capaz de fazê-lo também na prática. Por saber muito, acho que deveria poder muito também. Mas quanto mais sei, menos vivo. Quando mais entendo, menos sinto. E enquanto isso o tempo passa. O tempo passa, a vida acontece, faça eu o que fizer.
Ontem ao escrever esse ato falho pensei: chega, hoje não vou escrever mais nada, não consigo escrever nada direito. Foi então que me dei conta que tinha, nessa troca, me escrito muito mais do que se tivesse completado a frase original. Resumi ali minha sempre presente ambiguidade entre pular e cair, amar e fugir, acreditar e desconfiar. E, mais ainda, depois de precipício e príncipe, me veio a palavra princípio. Começo e fim, medo e desejo, todos esses contrastes que estão no mesmo lugar. O ponto é sempre o mesmo, o que desejamos e tememos, o que nos define e nós definimos. Aquela palavra, estranha, inesperada, errada, me escreveu. E, ao tomá-la e reconhecê-la como parte - mesmo indesejada - de mim, pude me inscrever, mais uma vez no mundo que existe fora da minha cabeça. Esse mundo que tanto me assusta, de que tanto fujo, mas que busco, querendo ou não, tornar-me parte.

domingo, 19 de junho de 2011

Do lado de dentro.

Estávamos em pé, do lado de fora, encostados à parede do prédio, o abismo aos nossos pés. Todo o cenário era estranho, o prédio desconhecido, não era o meu e nenhum dos seus. Conversávamos. Não me lembro o conteúdo da conversa, mas falávamos de nós. Discutimos. Você falava crueldades, aquele tipo de coisa que só falamos a quem amamos; não somos cruéis com quem não nos importa. Eu, apavorada, chorava. Você quase ria. Ridícula. Foi disso que você me chamou. Acreditei e te odiei. Odiei que você não entendesse que era tudo por você. Odiei que você entendesse que era tudo por você, e por isso ficasse tão irritado. Odiei não entender nada e me exasperei quando você disse que também não entendia. Pausa. Silêncio. Suposta calma. Tento reconciliar – porque acho que não sei fazer outra coisa – e novamente a raiva. Tua e minha. Mais silêncio. Cansaço. Sozinha, sinto o desespero da espera. Certeza de que não sairemos dali vivos. O chão era muito pouco, qualquer passo em falso nos faria cair. Paraliso. Tenho medo de falar, pois falar é deslocar, e não quero morrer. Fico sozinha com meu medo, não arrisco aproximar-me de você. Mas te olho. Você sorri. Nós caímos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A medida do impossível

“- Vamos pegar uma mesa? O pessoal já está descendo.”

E se eu tivesse dito não? E se respondesse que preferia esperar ali pelos outros? E se o “pessoal” realmente descesse logo, e não duas horas depois? Peguei-me fazendo essas perguntas como se fossem possíveis. Como se tudo já não tivesse acontecido do exato jeito que foi. É tanto acaso, tanto não saber, que me assusto. A displicência com a qual vivi esse e os primeiros encontros me dá medo. E se não existisse facebook? E se não estivéssemos online no mesmo momento? Tantos “e se” que parece quase um milagre termos nos encontrado.

Milagre ou não, o fato é que, um ano depois, estamos aqui. Um ano depois, minha vida não tem nada a ver com a vida que eu levava na noite em que nos conhecemos. E boa parte disso é por sua causa. Não discorde, não negue, apenas leia. O nosso encontro mudou a minha vida não só pelo amor, pela paixão, pelos beijos e todas essas coisas boas e felizes que vivemos. Mas porque com você aprendo a ver a vida de um jeito mais leve. Na primeira carta que te escrevi comparei-me a uma pedra, e você ao vento, e disse que só o que eu queria era admirar teu vôo. Mas o que aconteceu foi melhor. Você me ensinou a voar. Não tenho ainda grande autonomia de vôo, não me arrisco a dar rasantes, mas já consigo flutuar um pouco. Volta e meia caio, afinal uma pedra ainda é uma pedra, mesmo quando desfeita em grãos de areia. A cada queda me desfaço um pouco mais, e logo corro tentando me colar e pensar-me inteira mais uma vez. Mas quando me acredito inteira não vôo, a completude fictícia pesa demais. Penso que é necessária uma medida exata para que eu não me desfaça completamente, mas ainda assim consiga voar. Pensar em medida me remete à matemática, então tento calcular, mas não há razão que resulte na medida do impossível. E essa medida do impossível é a mesma que uso tentando controlar tudo que sinto por e com você.

Porque muitas vezes acredito que posso mesmo controlar. Que conseguirei dosar como e quando sentir amor, raiva, desejo, carinho... Mas a verdade é que não controlo nada. Sinto tudo ao mesmo tempo, mudo de idéia e me contradigo mil vezes. Nada com você é seguro, garantido, tranqüilo. Segurança, certeza e garantia eram as minhas palavras. Tudo em mim é (ou era) muito sério, pesado, medido corretamente e arrumado milimetricamente. Agora não consigo mais ter certeza da pontuação que usei na frase anterior. Minhas interrogações só aumentam, os pontos finais tornam-se reticências, e as vírgulas tentam desesperadamente pausar o ritmo acelerado do coração antes que ele exclame à exaustão.

E no meio, e ao centro, de toda essa desarrumação está você. Não foram só as minhas pilhas de livros que nunca mais ficaram organizadas depois que te conheci. Eu nunca mais consegui me organizar. E o mais estranho disso tudo é que eu hoje gosto de entrar em casa e ver livros no chão, fora do lugar. Gosto de me pegar fazendo e pensando coisas que nunca considerara antes. Divirto-me até com meu destempero que me enerva, mas que vira graça no momento que você sorri. Quando você ri das minhas loucuras, me quebra. Quando você implica com a minha mania de organização, me derruba. Quando você puxa meu cabelo, me desmancha. Desde a primeira frase que te ouvi falar você me desconcertou. Você ainda me desconcerta. Aliás, acho que é isso: você me desconcerta tanto, que acabou me consertando.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Falta

"A vida é a sós - e, o que é pior, também a morte." Campos de Carvalho

Quando li essa frase do Campos de Carvalho pensei que ela seria o começo perfeito para um texto que estava escrevendo sobre solidão. O problema é que sigo escrevendo esse texto e não consigo terminá-lo. De vez em quando retomo as poucas linhas escritas, penso em mil coisas, mas na hora de escrever não sai, e o que sai não gosto e apago. Não acho que seja à toa. Falar sobre solidão, morte, vazio, tudo que evoca a incompletude e a finitude inerentes ao ser humano é muito difícil.

Ocorre-me agora que um dos problemas, acho que o meu inclusive, é que falamos tentando não criar, mas apagar, desmerecer, superar. É muito comum falar de morte e solidão apenas como um lamento ou então como motivação para superação. Escuta-se muito por aí que “tudo passa”. Não acho que seja verdade. Lembrei-me de uma frase que me parece mais próxima da verdade: “Tudo passa, neste círculo infinito. Nada passa.” (Marcos Bassini). Isso me remete ao fato de que sim, as coisas passam, mas deixam marcas. Passar não significa apagar. Tudo que acontece, e muitas vezes o que não acontece, deixa marcas indeléveis, muitas vezes bem enterradas, escondidas no fundo do inconsciente, mas que sempre retornam.

Quando perdemos alguém, seja para a morte ou para a vida, perdemos um pouco de nós mesmos também. E essa perda deixa marcas, a presença do pedaço que falta, e que vai estar sempre ali. Tentamos moldar, preencher, esconder, mas somos feitos de mais do que carne, e a matéria humana não é tão maleável assim. Não há palavras, sentidos, ou explicações suficientes, a falta sempre escapa.

Quando falo da falta não me refiro apenas à morte ou outras perdas concretas, falo também da solidão, esse “A vida é à sós” de que falou Campos de Carvalho, a noção de que no fundo há um vazio que nunca será preenchido. Então, se não há preenchimento possível, e se nada passa, por que falar, por que escrever? Não para apagar, mas para contornar. Para construir com palavras uma borda que seja no vazio, uma fronteira feita de laços. Laços que quando são reais não se desfazem com a ausência, nem com a morte, eles contornam, amarram, seguram. Nascemos e morremos sós, mas as palavras já nos diziam antes de nascermos e continuarão nos escrevendo depois de morrermos. E é por isso que escrevo. É que, quando escrevo, não estou só.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O pensamento, o pulo e a queda.

O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda.

Escrevi essa frase alguns meses atrás e desde então ela tem me acompanhado. Escrevi-a para falar de um outro, de um personagem, mas sempre que escrevo, mesmo falando do outro, estou falando de mim. Nesse caso, é como se tivesse escrito um mantra, que devo repetir a cada dia, para que não que me esqueça: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Porque eu escrevi mas não acredito, pelo menos não na maior parte do tempo. Eu passo dias, semanas, meses, presa ao pensamento que segura o pulo. Acho que se analisar bem, se conseguir entender exatamente como pular, escolher o local, estabelecer a posição do corpo, descobrir a velocidade do vento e a temperatura do sol, o pulo vai ser tranqüilo, e a queda, um simples aterrissar nas nuvens. Só que esse pensamento todo me custa muito. Fico nervosa com a possibilidade de que alguma coisa escape, de que alguma variável não tenha sido bem analisada. E penso que preciso de mais tempo para ter certeza de que tudo vai correr bem, e também que tenho que pular logo, ou as condições vão mudar e meu estudo terá sido em vão. As dúvidas me angustiam, e a angústia é das piores dores: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Será que fui eu mesma quem escreveu essa frase? Ou foi ela que me escreveu? Afinal, nem sei de que eu falo, mas sei que estou ali, no pensamento, apavorada com a queda. Medo de quebrar, de não conseguir levantar, de não ter quem me dê a mão. O problema é que se não pular não quebro, mas também não ando. Fico parada, na beira do precipício, e enquanto isso a vida passa por mim. E ao escrever isso me assusto com a possibilidade de que a vida passe e eu nem veja. O pensamento cega. Fecho os olhos não para pular, mas para pensar: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Qual é a saída? Há saída? Percebo que penso tentando encontrar a saída mais fácil, mais segura, mais indolor. Mas ela existe? Suspiro e digo, em voz alta, para tentar me escutar: não. Viver se escreve com risco. Não há evitação possível da dor que não evite também a vida. E quero tanto tentar não evitá-la. Mas quero e não quero. Presa no conflito entre o medo e o desejo, paro, penso. Penso até que quero pular, mas não pulo. E os pensamentos já me controlam de novo: o que é pular, como faço, como saberei que pulei... "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Pular, agora, é escrever esse texto. É soltar essas palavras e conviver com os efeitos delas que restarão em mim. É endereçá-las e descobrir o que elas causarão no outro. É cair, porque sei que elas não dirão tudo, e nem me traduzirão do jeito que eu quero. Mas não há outro jeito. Se é preciso me inscrever nessa frase - e é preciso - tenho que pular com ela. Mesmo sabendo que um pulo não garante o próximo. E que a cada vez precisarei escrever, e viver, de novo: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"o que nos aproxima está além do sentido"

- Não consigo nem olhar pro lado.

No dia seguinte, acordei com torcicolo.

Essa poderia ser uma piada, e de certa forma é, mas aconteceu de fato. Há poucas semanas, comentando um texto, escrevi que nosso corpo, mais do que carne, é feito de palavras. Parece que meu corpo quis corroborar meu dito e ainda me mostrar que o “não conseguir olhar pro lado” metafórico, o das palavras, dói muito mais do que o torcicolo.

Algumas pessoas podem pensar que foi uma coincidência, ou que estou inventando, ou ainda minimizar, mas o efeito dessa tradução que meu corpo faz das palavras que digo me assusta, e muito. Se meu próprio corpo às vezes não entende o que eu quis dizer, quem vai entender? Aliás, o que significa essa expressão eu quis dizer? O que eu quis dizer não existe, o que vale é o que eu disse. Temos a tendência de contemporizar tudo: “o que vale é a intenção”, “eu não quis magoar”, “eu não sabia”. Não importa. Não faz diferença se não foi bem isso que eu quis dizer. Foi o que eu disse.

E, além disso, mesmo que eu explique perfeitamente o que queria dizer, nunca sei como o outro vai entender. Só sei que não será exatamente como pensei. Não há correspondência plena entra o que se diz e o que o outro escuta. Cada um é marcado pelas palavras de forma diferente. Ao ouvir a palavra diferença eu evoco alguns significados, você certamente diria outros. Não é porque você não me entendeu bem e preciso dizer de outra forma, é porque não há entendimento possível. Mas não acreditamos nisso, e seguimos nos comunicando assim, tentando o tempo todo nos entender, nos explicar, achando que esse é o grande objetivo da linguagem, que é a compreensão que nos une. Não é.

As palavras não nos ligam ao outro melhor se o entendimento for maior. O que faz laço, o que nos aproxima, está além do sentido. É o que a sua palavra desperta em mim, o que a minha letra causa em você. E isso não temos como controlar, por melhor que expliquemos. Só distraídos do entendimento é que dizemos o que mais nos marca.

Vejo agora como me desviei do que achava que seria esse texto. O corpo ficou lá em cima, as palavras me escreveram e me levaram para outro caminho, e eu segui. E não vou reescrever, em outro momento talvez escreva sobre a força das palavras sobre o corpo. Hoje, escrevi sobre a força das palavras em mim.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Além do Saber

- O problema é que você sabe demais.

Essa frase pura, destacada do contexto, pode significar, assim como toda frase, mil coisas. Poderia estar se referindo, por exemplo, a alguém muito qualificado com dificuldades de se colocar no mercado de trabalho. Ou a uma criança dispersa na sala de aula porque sua capacidade e conhecimento estão muito além do que é exigido ali. Poderia, ainda, fazer parte de um discurso cada vez mais comum de que uma mulher inteligente e de opinião forte assusta os homens.

Sobre cada uma dessas situações eu teria algo objetivo a dizer: concordar, discordar, fazer ressalvas. Opinar. Eu tenho opinião para tudo, ou se não tenho acho que deveria ter. Eu sei muita coisa e sou completamente apegada a esse saber. Acho que tudo deve ser feito depois de ser entendido, medido, etiquetado e organizado. Sou mestre em definir, classificar, organizar. Eu acredito que posso prever o que vai acontecer, como vou me comportar, como o outro vai agir. Muitas vezes eu acerto, mas na verdade nem é preciso acertar. Porque as expectativas são assim: você as cria e elas vão ser correspondidas ou não. São apenas duas opções, ambas previstas anteriormente. Indo bem ou mal, já sei o que vai acontecer.

Só que a verdade é que viver não tem nada a ver com saber. Eu sei de um monte de coisas, sei como resolver problemas, entendo tudo de tudo e continuo sem perceber o principal: que o saber não vale de nada nas coisas que realmente importam. O que nos move, o desejo, o amor, essas coisas vem de outro lugar. São coisas que caem sobre nós, tempestades que nos fazem voar se nos soltarmos, mas derrubam se tentamos nos segurar. E eu me seguro a maior parte do tempo. Seguro-me em teorias, previsões, planos. Luto a todo custo para que nada aconteça fora do que previ. Fecho a porta, as janelas, me sufoco, presa num ambiente de ar morno, morto, parado, rarefeito e viciado. Tudo por medo. E eu sei disso. Mas, mais uma vez, o saber não me adianta de nada.

Preciso me soltar. Preciso pular e cair até que o ar puro infle meus pulmões e eu consiga voar. O mais paradoxal – e real - é que sei que um dos pensamentos que me segura é o que diz: há uma chance de que você não planeje nada e tudo aconteça de um jeito ainda mais maravilhoso do que quando você previu que daria certo.

Quando escrevo é um dos poucos momentos em que me entrego a não saber. Quando escrevo sou marcada por outra coisa, por algo que me constitui, mas que eu não possuo. É além do saber. Releio esse texto agora, e sinto vergonha, acho que escrevi várias besteiras e que pareço louca. E acho que foi para isso que ele foi escrito. Para que eu fosse, mais uma vez, marcada pela verdade da minha neurose que tanto me segura. Para que eu pudesse sentir, como senti ao escrever o parágrafo acima, que a vida é maior do que eu, e isso é uma coisa boa. Para que as palavras escritas circulem, voem e sussurrem no meu ouvido: pode pular. Estaremos aqui.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mosaico

- Já estou vendo que você é perigosa.

Quase um ano depois percebo quanto tempo e energia gastei tentando provar a ele – e a mim – minha resposta: não sou perigosa. Sou estável, confiável, leal, segura. Numa analogia que usei muitas vezes em relação a nós me descrevo como pedra. Mas de que pedra falo? Uma pedra enorme, parada, pesada, quase montanha, intransponível? Ou uma pedra de rio, que apesar de presa no mesmo lugar a cada dia muda, sendo lixada e moldada pela força das águas? Ou ainda uma pedrinha daquelas que resultam de britadeira no asfalto, tão pequena e leve que voa com o vento quase como se vento fosse?

Sempre julguei que era a maior, imutável, e por isso não oferecia perigo nenhum: o que podemos prever não nos assusta. A repetição acalma; por pior que seja, sabemos como lidar com ela. Mas hoje, quando me vejo, não me reconheço. Quando me penso, não me entendo. Quando me sinto, não me explico. Acho que poderia ser qualquer uma dessas pedras. Acho que sou todas. E me assusto. Porque não sei se sou perigosa. Perigosa para quem? Para o outro? Se nem eu sei quem sou, quem é esse eu que me habita, que corpo é esse que me pertence, mas não me comporta, como posso garantir ao outro que sou estável? Não posso. Não tenho mais garantias, nem certezas, e elas me faltam enormemente. A sensação é de que elas quando partiram me despedaçaram. E agora sou esse monte de pedaços, fragmentos de histórias que não se juntam mais harmoniosamente. Tento me colar e acabo criando um mosaico de mim.

Porque acho que preciso dar garantias ao outro? Porque acredito que, sem elas, ele vai embora. Porque ainda reluto em aceitar que é o desejo, e não o saber que une as pessoas. Porque eu preciso de garantias. Ou costumava precisar. Aí está meu maior medo, o grande perigo que represento: eu mudo. Mudo para não emudecer. E quando falo, as garantias se acabam. Quando abro a boca, ou mexo os dedos, não sei o que vai sair. Ao começar a escrever essas linhas, não sei onde vou parar. Não posso garantir que você vai gostar do que ler. Pode ser uma história triste ou pode ser uma declaração de amor. Qual delas te assusta mais?

terça-feira, 19 de abril de 2011

Escolhas

Eu tenho problemas com o destino. Essa coisa de "maktub" (do árabe, "estava escrito") ou o que tiver que ser será. Acho que o que tiver que ser só será se fizermos alguma coisa, e o que estava escrito só vai valer se for lido. Eu costumo dizer que destino é uma desculpa para o comodismo e a desresponsabilização do sujeito frente à sua vida e suas escolhas. Porque, sejamos sinceros, escolher é difícil. Toda escolha implica em perda. E ninguém gosta de perder. Então adiamos, enrolamos, colocamos a responsabilidade no outro - e o destino é um dos outros favoritos.

O problema é que a vida parece muito com um jogo de xadrez. (Isso pode soar como um clichê brega, mas é uma ótima analogia, acreditem.) A cada passo dado, a cada peça movida, a cada escolha feita perdemos milhares de outras possibilidades. Dar um passo para a direita significa não dá-lo para a esquerda. Andar com uma peça significa não andar com todas as outras. Só que, para ganhar é preciso andar, mover-se, e às vezes até fazer um sacrifício. Só assim temos alguma chance de ganhar. E na vida é a mesma coisa. Pode-se dizer que enquanto não escolhemos continuamos com todas as opções disponíveis, e é verdade. Mas elas existem apenas como potencialidade. Sem escolher não perdemos, mas também não ganhamos. De que adianta poder mover qualquer peça em qualquer direção se você não o faz? O jogo continua e é a vez do outro, e agora as suas escolhas serão limitadas pela escolha dele. Que desculpa perfeita, não é? Se quem escolheu foi o outro, se quem diminuiu as possibilidades foi o destino, você pode passar o resto do tempo reclamando. Pode dizer que a escolha não foi sua. Mas a escolha de não escolher foi, sim, sua. Mesmo que não a tenha escolhido, ao não dar o passo que lhe cabia, você escolheu ficar parado. Escolheu não fazer nada. Escolheu deixar que o outro escolhesse.

Mas essa não é a única forma de fugir às escolhas. Eu, por exemplo, penso. Mas penso muito, muito mesmo. Estudo, analiso, pondero, meço, questiono, articulo, projeto, planejo... E aí o tempo também passa. Não fico parada para manter as opções em aberto e nem porque acho que não adianta lutar contra o todo-poderoso-destino. Mas ainda assim paraliso. Paraliso em pensamentos dentro de mim, como se eu pudesse viver na minha cabeça uma vida fora do tempo. E, depois, quando vejo, perdi a jogada. Não culpo o outro nem o destino. Culpo a mim. Mas é a mesma coisa. A culpa não dá margem à responsabilidade. A punição não recupera o tempo – nem a escolha – perdida.

Falamos muito da liberdade de escolha, mas o que ela representa? Acredito que ser livre para escolher é não estar preso à obrigação de ter (ou fazer) tudo. É apostar, arriscar, errar, acertar, escolher de novo. Porque uma escolha, de fato, diminui as possibilidades que existiam antes dela. Sem escolher, passamos a vida com essas mesmas possibilidades, que podem ser muitas, mas são sempre as mesmas. Só escolhendo surgem novas possibilidades. Só escolhendo abrimos espaço para a surpresa, para o novo, para o imprevisível. Para a vida.