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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não são assim todos os finais?

“É impossível viver e pensar ao mesmo tempo.” (Gonçalo M. Tavares, “O Homem ou é tonto ou é mulher")

"O homem no meio da escada hesitava há vários dias entre subir e descer. Os anos passavam e o homem continuava a hesitar: subo ou desço? Até que certo dia a escada caiu." (Gonçalo M. Tavares, “O Senhor Brecht”)

Esses dois trechos do Gonçalo Tavares têm me feito pensar: quanto tempo nós passamos – e perdemos – pensando? Planejando, tentando entender, buscando acertar? Eu sei que eu perco muita vida assim. Tudo que me acontece eu tento enquadrar em algum lugar, tento organizar dentro de um plano de vida que eu acho que deveria seguir. Tenho medo do erro, medo da impossibilidade de voltar atrás. Medo de perder. Só que esse tanto de medo acaba me paralisando tanto que perco a chance de viver. Continuo sem poder voltar atrás e o que é pior: sem ir para frente, ou nem mesmo dar um passinho para o lado. O pensamento é uma prisão que crio tentando proteger-me do imprevisível. Mas não é possível, o imprevisível, o acaso, o incontrolável, tudo isso é parte inexorável da experiência humana. Mas mesmo sabendo disso, não adianta: continuo tentando me esquivar. Fujo tanto que acabo parada no mesmo lugar. E sempre que ouço alguém como Gonçalo falando me assusto: como é possível viver assim? Simplesmente fazendo o que tem que ser feito, escrevendo o que tem que ser escrito, falando o que lhe vem à cabeça e só aí se encontrando com suas próprias decisões? Admiro muito quem consegue agir assim. Eu estou sempre atrás de certezas. Atrás de garantias. Atrás. Estou atrás de mim, atrás das dúvidas e dívidas com as quais não quero arcar. Mas a vida sempre cobra seu preço. Só posso viver e ser feliz às minhas custas. Se evito pagar o preço do erro, o preço do risco, sou cobrada pela procrastinação e o tempo que passa e não arrefece.

Por isso, por hoje, tentei deixar-me ir pela fala de Gonçalo. Escrever o que me atravessa sem tentar organizar o fim, por mais que isso doa. E me parece agora um final abrupto, mas penso: não são assim todos os finais?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Resenha: "Uma Viagem à Índia", Gonçalo M. Tavares


Melancolia contemporânea (um itinerário)

Não posso começar essa resenha de outra forma que não seja dizendo que Gonçalo é um gênio da literatura. Transformar um Épico sobre uma viagem à Índia, dividido em cantos e estrofes, num tratado sobre a vida contemporânea é quase inimaginável; mas foi exatamente o que ele fez.

O subtitulo do livro "Melancolia contemporânea (um itinerário)" é perfeito, e diz muito mais do livro do que o título em si. Porque muito mais do que viajar até a Índia, o que Bloom faz é um percurso de vida. Ele busca, como buscamos todos, respostas, sabedoria, amor, algo que lhe traga paz ao mesmo tempo que o empurre para a vida. Ele sai de Portugal fugindo de uma situação trágica e acredita que na Índia, tão mística e antiga, encontrará o que em casa não conseguiu. Acompanhamos Bloom então durante sua jornada, esperando e torcendo que ele encontre a paz e a felicidade - e a cada estrofe percebendo que a vida não é bem assim. O que me restou do livro é que não há esse Éden que buscamos. Preocupamo-nos muito com o que é a vida, com a busca da felicidade, com grandes acontecimentos importantes, e acabamos paralisados de tanto pensar, não percebendo que a cada dia a vida passa, e somos nós que não damos peso ao que nos acontece.

Através de Bloom, Gonçalo traça genial e minuciosamente o itinerário que nós, maníacos e melancólicos "pós-modernos" vivemos. E tudo isso com uma escrita ao mesmo tempo crua, irônica, leve e acolhedora. Como esses quatro adjetivos podem representar uma mesma escrita? Só lendo Gonçalo para sentir.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Resenha: Jerusalém.




A novidade da vida.

"Com os hábitos certos e monótonos Hinnerk procurara diminuir as possibilidades daquilo a que se poderá chamar de "o novo"."

Hinnerk pode até temer o novo. Todas as personagens de "Jerusalém" parecem temê-lo em medidas diferentes. A nossa sorte é que seu autor não apenas não o teme como parece buscá-lo. Sua escrita e sua história não se parecem em nada com coisa nenhuma, e é aí que reside meu maior ponto de encantamento com Gonçalo.
"Jerusalém" me deixou constrangida ao ler em suas páginas nossas incansáveis tentativas de transformarmo-nos em marionetes de nós mesmos. Gonçalo mostra de forma muito sensível, inteligente e sutil como passamos nossos dias tentando a todo custo evitar o novo, a surpresa, o imprevisto. Ou seja, passamos nossas vidas tentando evitar a própria vida.
As personagens são "claramente" loucas, mas basta um olhar um pouco menos superficial para perceber que não são mais perturbadas que qualquer um de nós.
Ao terminar o livro passei muito tempo pensando em como livrar-me dessa maldita tentação de encaixar-me na personagem que criei para mim mesma, como permitir que a vida e seus acontecimentos caiam sobre mim, como abrir espaço para o frescor que Gonçalo tanto me fez desejar. E quando estava lá, pensando, maquinando, organizando idéias, lembrei-me novamente de Gonçalo, que em outro livro diz: "É impossível viver e pensar ao mesmo tempo." e fui então atingida pela certeza de que é só assim, sem pensar, que os acontecimentos realmente novos, aqueles que mudam nossas vidas, podem acontecer.
E, apesar de ter iniciado a leitura compartilhando do medo de Hinnerk, ao terminá-la (e esse fim só chega agora, ao escrever essas palavras) fico com a feliz certeza de que a vida acontece, apesar de mim.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011


‎"Um dia meus pais perguntaram-me:
- Filho, o que queres fazer da vida?
E eu respondi-lhes:
-Tudo, exceto ser espectador."


Gonçalo M. Tavares, "O homem ou é tonto ou é mulher."

Não resistimos mesmo...

"Se uma mulher me pedir: - Quero que subas até o 10º andar pelas escadas e lá do alto grites que me amas; se uma mulher me pedir isto, é claro que eu não vou subir a lado nenhum, nem gritar nada - que não sou de gritos - mas de certeza que vou lhe dar um beijo. Elas não resistem a isso."


Gonçalo M. Tavares, "O Homem ou é Tonto ou é Mulher".

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Eterno Adiamento da Neurose - ou a procrastinação nossa de cada dia.

"O homem no meio da escada hesitava há vários dias entre subir e descer. Os anos passavam e o homem continuava a hesitar: subo ou desço? Até que certo dia a escada caiu."

Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht".