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sábado, 19 de maio de 2012

De príncipes e heróis


E aí você chegou. Ou melhor, eu cheguei. Você já estava lá. Eu que andava em círculos sem parar, e você que me via e pensava, Será que ela não fica tonta nunca? Eu ficava. Mas já não sabia mais como era viver sem estar tonta, com o medo constante de que o chão desaparecesse. Até que um dia, nem sei muito bem como, eu dei um passo pro lado. Saí do círculo, e o chão continuou lá. Era estranho estar parada. Sentei, ali mesmo, ao lado do círculo marcado pelos meus passos. Passei muito tempo sentada, olhando para o que um dia foi a minha vida e achando aquilo meio cinza. Meio morto. Tudo me parecia assim e, se eu não estava mais rodando sem parar, também não estava seguindo em frente.


E aí você chegou. E me deu a mão. Eu levantei, e vi dentro dos seus olhos escuros todas as cores que o mundo havia perdido. E no seu peito encontrei um coração que batia numa melodia que eu há muito tempo não escutava. Não sei, aliás, se já a tinha escutado. Mas me parecia familiar. Nós caminhamos, e o seu cheiro também parecia familiar e, ao mesmo tempo, inédito. Parecia cheiro de terra molhada depois da chuva. Cheiro de felicidade.


Então, quando você chegou, com essas cores e melodias e esse cheiro, achei que você fosse ele. Mas você não é meu príncipe. Você é melhor. Você é feito de carne e osso, e quando você me beija eu sinto gosto de sangue. Gosto de vida. Quando eu deito a cabeça no seu ombro, sei que posso depositar ali todo o peso que a vida me faz carregar. Ao descansar nesse ombro tão forte pensei, Talvez ele seja um herói.


Então, quando você chegou, com um corpo feito de vida e um ombro de herói, eu entendi. Entendi porque era melhor que você fosse um homem, e não um príncipe. Príncipes são fantasias, assim como deuses. Tudo para eles é possível. Eles não têm coragem porque não sentem medo. Por isso, desde que o mundo é mundo, os heróis são humanos. São homens, e cada um tem o seu calcanhar de Aquiles, lembrando-o do risco, presentificando a morte. É na presença da morte que se vive. O herói, por se saber finito, faz de cada chance uma pequena eternidade. E é por isso que eu não preciso de um príncipe. Porque o amor é para heróis. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Calo por amor.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

Tem frases que escrevo e que me perseguem. É sério: eu as escrevo, penso que me livrei, e, de repente, a frase ressurge como se fosse a primeira vez que... o que? Que a escrevi, que a ouvi, que a pensei? Não sei. Frases assim são como pedaços de real que passam por mim, me cortam, mas que não são minhas. Elas me atravessam e deixam essa marca que não cicatriza nunca, que sangra a cada vez que penso, que ouço, que escrevo.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

Como assim calar por não poder falar tudo? É justamente por não conseguir falar tudo que eu falo. Falo, penso, escrevo, defino, grito, tudo tentando dizer o máximo que eu puder. Amor? Aí mesmo é que eu não me calo. Praticamente tudo que eu falo tem a ver com amor. Escrevo amor amor amor amor milhares de vezes tentando alcançar, entender, descobrir, saber o que é esse tal de amor que tanto me perturba.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

Curiosamente lembrei agora de um dos primeiros posts do meu blog em que eu reclamava me calar por não saber falar de amor. E respondi à minha reclamação dizendo que o problema é que eu só falava do que sabia e organizava, e que era impossível organizar o amor. Parece-me que, daí em diante, resolvi que ia falar sobre amor até aprender. Então escrevi o amor em prosa e poesia, realidade e fantasia, felicidade e agonia, e ainda assim não entendi. Não entendo, não aprendo, continuo não sabendo.

Calou-se. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que se diz quando se fala de amor.

E então, agora, esse calar. Que depois de tantas repetições (na minha cabeça e na tela do computador) me atinge de outra forma. É um calar diferente do calar por não saber ou do calar por conformismo de que não entenderei jamais o amor. Calei, no dia em que escrevi essa frase pela primeira vez, por me submeter ao fato de que não poderia explicar, e nem dizer tudo sobre o amor. Que mesmo tendo muito a dizer, mesmo tendo todas as palavras existentes e inventadas à minha disposição, ainda assim sobraria a falta. A falta, que é o que faz do amor, amor.

Calo-me agora. Não por ficar sem palavras ou não haver mais nada a dizer, mas porque não há como falar tudo que digo quando amo. E é por isso que amo.


*Texto originalmente publicado aqui.


domingo, 19 de junho de 2011

Do lado de dentro.

Estávamos em pé, do lado de fora, encostados à parede do prédio, o abismo aos nossos pés. Todo o cenário era estranho, o prédio desconhecido, não era o meu e nenhum dos seus. Conversávamos. Não me lembro o conteúdo da conversa, mas falávamos de nós. Discutimos. Você falava crueldades, aquele tipo de coisa que só falamos a quem amamos; não somos cruéis com quem não nos importa. Eu, apavorada, chorava. Você quase ria. Ridícula. Foi disso que você me chamou. Acreditei e te odiei. Odiei que você não entendesse que era tudo por você. Odiei que você entendesse que era tudo por você, e por isso ficasse tão irritado. Odiei não entender nada e me exasperei quando você disse que também não entendia. Pausa. Silêncio. Suposta calma. Tento reconciliar – porque acho que não sei fazer outra coisa – e novamente a raiva. Tua e minha. Mais silêncio. Cansaço. Sozinha, sinto o desespero da espera. Certeza de que não sairemos dali vivos. O chão era muito pouco, qualquer passo em falso nos faria cair. Paraliso. Tenho medo de falar, pois falar é deslocar, e não quero morrer. Fico sozinha com meu medo, não arrisco aproximar-me de você. Mas te olho. Você sorri. Nós caímos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A medida do impossível

“- Vamos pegar uma mesa? O pessoal já está descendo.”

E se eu tivesse dito não? E se respondesse que preferia esperar ali pelos outros? E se o “pessoal” realmente descesse logo, e não duas horas depois? Peguei-me fazendo essas perguntas como se fossem possíveis. Como se tudo já não tivesse acontecido do exato jeito que foi. É tanto acaso, tanto não saber, que me assusto. A displicência com a qual vivi esse e os primeiros encontros me dá medo. E se não existisse facebook? E se não estivéssemos online no mesmo momento? Tantos “e se” que parece quase um milagre termos nos encontrado.

Milagre ou não, o fato é que, um ano depois, estamos aqui. Um ano depois, minha vida não tem nada a ver com a vida que eu levava na noite em que nos conhecemos. E boa parte disso é por sua causa. Não discorde, não negue, apenas leia. O nosso encontro mudou a minha vida não só pelo amor, pela paixão, pelos beijos e todas essas coisas boas e felizes que vivemos. Mas porque com você aprendo a ver a vida de um jeito mais leve. Na primeira carta que te escrevi comparei-me a uma pedra, e você ao vento, e disse que só o que eu queria era admirar teu vôo. Mas o que aconteceu foi melhor. Você me ensinou a voar. Não tenho ainda grande autonomia de vôo, não me arrisco a dar rasantes, mas já consigo flutuar um pouco. Volta e meia caio, afinal uma pedra ainda é uma pedra, mesmo quando desfeita em grãos de areia. A cada queda me desfaço um pouco mais, e logo corro tentando me colar e pensar-me inteira mais uma vez. Mas quando me acredito inteira não vôo, a completude fictícia pesa demais. Penso que é necessária uma medida exata para que eu não me desfaça completamente, mas ainda assim consiga voar. Pensar em medida me remete à matemática, então tento calcular, mas não há razão que resulte na medida do impossível. E essa medida do impossível é a mesma que uso tentando controlar tudo que sinto por e com você.

Porque muitas vezes acredito que posso mesmo controlar. Que conseguirei dosar como e quando sentir amor, raiva, desejo, carinho... Mas a verdade é que não controlo nada. Sinto tudo ao mesmo tempo, mudo de idéia e me contradigo mil vezes. Nada com você é seguro, garantido, tranqüilo. Segurança, certeza e garantia eram as minhas palavras. Tudo em mim é (ou era) muito sério, pesado, medido corretamente e arrumado milimetricamente. Agora não consigo mais ter certeza da pontuação que usei na frase anterior. Minhas interrogações só aumentam, os pontos finais tornam-se reticências, e as vírgulas tentam desesperadamente pausar o ritmo acelerado do coração antes que ele exclame à exaustão.

E no meio, e ao centro, de toda essa desarrumação está você. Não foram só as minhas pilhas de livros que nunca mais ficaram organizadas depois que te conheci. Eu nunca mais consegui me organizar. E o mais estranho disso tudo é que eu hoje gosto de entrar em casa e ver livros no chão, fora do lugar. Gosto de me pegar fazendo e pensando coisas que nunca considerara antes. Divirto-me até com meu destempero que me enerva, mas que vira graça no momento que você sorri. Quando você ri das minhas loucuras, me quebra. Quando você implica com a minha mania de organização, me derruba. Quando você puxa meu cabelo, me desmancha. Desde a primeira frase que te ouvi falar você me desconcertou. Você ainda me desconcerta. Aliás, acho que é isso: você me desconcerta tanto, que acabou me consertando.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O susto virou surpresa

(...)

É curioso pensar nas conseqüências dos nossos atos ou do que nos acontece quando o tempo decorrido nos afasta da situação. Ao escrever agora sobre aquela noite tive uma percepção completamente diferente da que me tomou quando ela era, ainda, o suposto último encontro, e mesmo quando, duas semanas depois, deixou de sê-lo.

Lembrava-me de um encontro cheio de poréns, atrapalhado, esquisito, mesmo que tenhamos conseguido rir da situação e não levá-la tão a sério. E achava que isso era uma coisa ruim, que um encontro desses significaria, mais do que qualquer coisa, o fim. Hoje, no entanto, acho que foi justamente esse emperrado que nos levou a um novo encontro. Não houve um fim propriamente dito naquela noite. Mas será mesmo que veio daí o desejo de um novo encontro? Não há como saber. Mas o que percebi é que desde então a história que construímos se parece muito com aquela noite: cheia de falhas, de faltas, de imprevisibilidade, de atrasos, de separações...

Confesso que relutei muito antes de aceitar essa nossa relação. Acreditava que queria outra coisa: um relacionamento tranquilo, com alguém mais simples e em que tudo fosse mais fácil. Sempre achei que minha felicidade fosse diretamente dependente de estabilidade e organização. E talvez tenha sido, mesmo. Também por isso nunca gostei de mudanças. Mas elas acontecem, mesmo comigo, apesar de mim.

E fui descobrindo que para cada falha há um sorriso. Para cada atraso, um beijo. Para cada separação, um novo encontro. E me vi cada vez mais feliz onde menos esperava: no meio dos imprevistos, da indefinição e da incerteza. Porque, de repente, o susto virou surpresa. O surto virou desejo. E todas as decisões tomadas sem antecedência, sem análise, sem estudo, deram certo. De repente, a sorte. Uma sorte inacreditável, coisa de livro, coisa de filme, coisa nossa. E quem vai lutar contra a sorte?

Eu poderia. Acho que ainda luto, ainda lutamos. Mas a luta faz parte, também. Os recuos que são como a maré se recolhendo para voltar numa onda maior. Não temo mais que a onda me derrube. Arrisco o passo sem saber se será adiante, se será tropeço, ou se será queda. Não importa. Cair não me apavora mais. Porque na nossa história o que é fim, de repente, se torna começo.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Poesia e Amor

André: Essa nossa história está te fazendo mal, não é?

Clara: Não, André. Quer dizer, às vezes me faz mal, principalmente quando você não está. Mas também me faz muito bem, mais do que qualquer outra coisa. O problema é que eu não entendo nada, e você sabe como isso me angustia. Eu não sei o que fazer. O seu silêncio grita comigo, fico morrendo de raiva, morrendo de tristeza, morrendo. Mas aí é só ouvir a sua voz que já começo a sorrir.

André: É porque sou muito engraçado.

Clara, sorrindo: Você é muito engraçado e sabe que adoro seu humor. Mas é muito mais que isso. É como se a sua voz despertasse meus sonhos e adormecesse meus pesadelos. Não importa quão mal eu esteja, ao te ouvir meu coração subitamente relaxa, se expande, e o pedaço onde te guardo - e que minutos antes eu tentava arrancar - ressurge maior do que nunca, ocupando todos os espaços.

André: Minha poeta linda.

Clara: Não é poesia. É amor.

André: E desde quando poesia e amor são coisas diferentes?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Por que?

Tuas palavras que me escrevem. Teu silêncio (in)decifrável. Teus olhos de precipício. Tua boca que me envenena. E teu beijo que me cura. Tuas dúvidas. Tuas certezas. Tua extroversão superficial. E tua timidez profunda. Teu riso raro. Tua mão, sempre quente, em mim. O conforto dos teus braços. Tua inteligência sedutora. Tua genialidade óbvia. Teus mil talentos. Tuas músicas. Teus escritos. Tua voz que me enfeitiça. Teu canto que me encanta. Teu corpo que me desperta. Teu cabelo (des)arrumado. Tua barba. Teu jeito de puxar meu cabelo (que me desmancha inteira). Teus convites loucos (que eu sempre aceito). Teu sabor. Teus medos infantis. Tuas perguntas sem resposta. Teus livros. O ciúme dos teus outros tantos. O carinho com que beija meus olhos fechados. As maratonas culturais. Os olhares silenciosos. O jeito que me incentiva. A raiva orgulhosa dos meus textos. Tuas previsões delirantes. Tua fuga que sempre volta. Tua volta que sempre vai. Teu tempo, tão diferente do meu. Tua mentiras sinceras. E as verdades encobertas. Os nomes que não damos. A felicidade que vivemos. Os planos que não fazemos. Nosso passado que é presente. Nosso fim, que é (re)começo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Clara: labirinto


(...) então André perguntou no seu tom de voz que é quase música: Você gosta de ser assim tão bonita? Clara enrubesceu e sorriu, envergonhada. Olharam-se em silêncio, um silêncio feito de olhos sorridentes, esperança e sonhos. E, entre sorrisos e sonhos, André tocou o rosto de Clara. E a beijou.
E foi aí que tudo acabou e começou, no mesmo instante. Todas as certezas, planos, previsões e estudos de Clara estavam condenados. Ela sabia que nada mais daquilo importava. Ela queria surpresas. Queria desejar sem saber o porquê, sem nem saber o que queria até que fosse tarde demais e ela já o tivesse. Ela não queria mais encontrar a saída, alcançá-la em uma única curta travessia – sem desvios ou obstáculos. Ergueu as mãos e deixou o vento levar o mapa. Desistira do caminho mais curto. Queria continuar perdida enquanto pudesse.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Doces Memórias

(...) continuamos andando, lado a lado, até um trecho que tinha uma carcaça de barco no mar, você se lembra? Eu lembro porque foi aí que paramos, para ver o tal barco, e você me tocou. Você só encostou, segurando muito de leve o meu braço. Mas bastou isso. Em um segundo fui completamente tomada pelo desejo e o pânico que sempre o acompanha. Você sentou-se na mureta. E eu, de repente tão nervosa, fiquei em pé. Falamos de poesia. Eu disse que “Ou Isto Ou Aquilo” era meu livro favorito na infância. Você recitou um trecho. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Quais as chances de sair com um homem capaz de recitar Cecília Meireles? E, mais, a tua voz. Você recitava com aquela voz, e me olhava com aquele olhar. Pensei que fosse chorar, ou rir, alguma coisa ia acontecer. Então você me puxou, me abraçou, e me beijou. E me beijou. E segurou de leve meu cabelo, daquele jeito que você hoje sabe tão bem que me desmancha inteira. E era tudo bom. O beijo, a mão no cabelo, a voz no ouvido, os olhos nos olhos. Eu teria ido com você pra onde quer que fosse naquele momento. Mas nunca imaginaria que acabaríamos na praia que tantas vezes fui quando criança. Um lugar que me era cheio de lembranças infantis, de família, daquela felicidade doce e plena que experimentamos algumas vezes na infância e ficam guardadas para sempre em nós. Ao levar-me ali você, sem saber, ativou algumas das minhas mais doces memórias. E eu, sem saber, deixei que você se alojasse junto a elas.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

(des)canso

Tenho medo de muita coisa. Eu posso parecer forte, segura, bem-resolvida e analisada, mas é só fachada, uma armadura que uso para me proteger. Na verdade tenho muito medo. Medo de falar, de sentir... Mais que tudo eu temo me perder e não saber como voltar a esse eu que suponho que sou. Só que tem momentos que esse medo todo cansa. É exaustivo lutar tanto contra essa entrega, essa paixão, esse amor, essa coisa que você me causa e que nem nome consigo dar. Mas temo, muito, me dar assim: indefinida, imperfeita, errada. E sinto que às vezes até as minhas palavras se cansam e me escapam pela boca para descansar dentro de ti. E eu só queria poder fazer o mesmo. Escapar do meu medo, do meu controle, de mim, e descansar, tranquila, naquele côncavo entre teu braço e teu peito, que é, pra mim, o lugar mais perfeito do mundo.

A permanência do sentimento

"Amor, amizade, o que é que isso quer dizer? São convenções, minha querida. As pessoas amam-se ou não se amam. Depois há diversas formas de exprimir esse afecto, que vão mudando ao longo do tempo. O que acontece é que a sua família é composta por pessoas intensas. Pessoas capazes de suportar a permanência do sentimento, com todos os seus desequilíbrios internos, uma vida inteira. Não há muitas pessoas assim."

Inês Pedrosa, "Nas Tuas Mãos".

Repetidas e melosas palavras de amor...

(...)

André: - Não sei de onde você tira essas idéias, Clara.

Clara: - Do mesmo lugar que você tira as suas, do pensamento. A diferença é que seus pensamentos são sempre muito vivos, mesmo sua melancolia tem um traço de vida que encanta e nos faz ter menos medo de abrir a porta.

André: - Isso não é verdade, você só acha isso porque está apaixonada por mim.

Clara: - Eu acho isso porque é a única explicação que tenho para a porta escancarada com a qual te recebo. Porque preciso sempre de explicações, sentidos, motivos, preciso organizar tudo que penso, sinto e faço. Eu normalmente só falo depois de saber exatamente o que falar e como falar. Mas contigo nada disso importa, minhas palavras bonitas, secas e corretas desaparecem e quando dou por mim só falto morrer de vergonha das repetidas e melosas palavras de amor que me acreditava incapaz de pronunciar.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Por que?

Teus olhos que me descobrem.

Tua boca que me dá fome.

Tuas mãos que me seguram e me libertam.

Tua pele que me veste feito luva.

Teu cheiro que me inebria.

Teu toque que me desloca, louca.

Teu sabor que é deleite.

Tuas palavras que me tatuam.

Teu sonho que me dorme.

Teu ritmo que me compõe.

Tua neurose que me faz abrigo.

Teu sorriso que me faz piada.

Teu tempo que me faz presente.

Tua impermanência que me repete.

Tua hesitação que me faz desejo.

Tua chatice que me faz companhia.

Tua presença que me faz boba.

Teu caminho que me faz estrada.

Você que me faz eu.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu sou tua.


Às vezes sinto uma vontade desesperadora de fugir também. De sair antes de você, para não ter que lidar com o enorme vazio que sei que você vai deixar. Mas meu desejo é mais do que o que eu quero. Eu sou para além de mim. Eu sou tua. Então espero, me entrego, e coleciono os nossos momentos, para continuar te escrevendo quando inevitavelmente você se for.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Clara: felicidade.


Olhou-se no espelho e tomou um susto. Olhos sorridentes a encaravam. Pensou: onde eu estava esse tempo todo enquanto a mulher de olhos tristes dava lugar a essa menina de sorriso tão doce? Não sabia nem que era capaz de sorrir assim. E como era possível que o tempo passasse e, ao invés de envelhecer, aquela mulher tivesse tornado-se, enfim, uma menina? Nada fazia sentido, e Clara achava que aquele sentimento era paradoxal demais para ser real. Respirou fundo e tentou organizar as coisas. Organizar e classificar sempre a acalmavam. Enumerou os acontecimentos: o tempo havia passado; ela tinha sofrido; chorado; perdido. Perdeu pessoas, sonhos, toda uma vida perfeita e exaustivamente planejada. Tinha sido muito difícil, mas Clara sempre tinha uma saída para os momentos difíceis: um novo plano, novas metas, realocação de sentimentos e expectativas. E foi isso que ela fez. Reestruturou-se e acreditou ter encontrado um novo equilíbrio.
Os dias aos poucos se adaptavam à nova rotina. Conheceu outras pessoas, acreditou em outros sonhos, pensou outra vida. Tudo acontecia dentro do novo planejamento, até que, um dia, a vida aconteceu. Não a vida que Clara pensava, mas aquela que o Real a obrigava a viver. O acaso. Clara assustou-se. Tentou controlar, fugir, negar: ela era muito boa nisso. Mas o acaso tinha nome e sobrenome. E tinha olhos, boca, pele e voz. E era tudo tão vivo que chegava a assustar. A cada vez que Clara tentava controlar lembrava-se dos olhos. A cada vez que tentava fugir pensava na boca. A cada vez que tentava negar sonhava com a pele. E, quando escapava de todo o resto, ouvia a voz. E aí voltava. Voltava, esperava, sorria, chorava, sentia tudo ao mesmo tempo e não entendia nada. Não entender e não saber sempre foram os maiores medos de Clara.
Então, de repente, viu-se perdida, sem ter a menor idéia do que estava fazendo. E o pior veio em seguida: não sabia dizer o que sentia. A palavra felicidade saiu de sua boca, mas não era possível. Desde quando felicidade é essa coisa louca e estranha, não planejada, no meio de mil incertezas e nenhum tipo de garantia? Felicidade para Clara sempre dependera da conjunção correta de vários fatores. Mas não conseguia evitar. Estava apaixonada, e feliz, vivendo uma relação completamente fora de todos os seus padrões. Ainda assim, era só lembrar-se dos olhos, sentir a boca, ouvir a voz, que ela sorria. Bastava um toque para que ela se desmanchasse. Tinha que admitir que estava perdida. Não fazia idéia de onde aquele caminho a levaria. E pela primeira vez não se preocupou. Só queria que aquele homem a tomasse e a levasse para junto dele, onde quer que isso fosse.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A Pedra e o Vento

Eu sempre senti em você algo que escapa. Algo fugidio, como se você tivesse asas, sempre buscando alçar novos vôos, inquieto e curioso demais pra permanecer muito tempo no mesmo lugar, com as mesmas idéias, com as mesmas pessoas. Como se o ar que te faz vivo só pudesse ser respirado em movimento, como se você respirasse vento. A sensação é que o mundo que você vive é muito mais bonito e rico do que o das outras pessoas, do que o meu, por exemplo. Mas não é isso. Você não vive num mundo só seu, louco e irreal, a mágica está em aceitar a realidade que existe, submetendo-se ao fato de que ela está sempre em transformação, sem tentar fixar todo acontecimento e sentimento, sem dar peso excessivo à coisa alguma. O novo é que, quando surge, sempre parece – e é - mágico.

Surpreendo-me com o fato de você me atrair tanto. Eu não sou leve. Eu não vôo. Eu sempre fui pedra. Eu quero que o mundo pare, que nada mude, ou que só mude com autorização prévia, pesquisada e documentada. Em teoria, eu detestaria vento. Eu sempre detestei. Mas o vento que você traz me encanta, encantamento que vem da sua própria inconstância. Às vezes ele chega como tempestade, que derruba minhas certezas, embaralha meus conceitos e traz em seu sopro novidades lindas e assustadoras. Em outras é uma brisa de fim de tarde, na beira da praia, que traz um respingo de água pra refrescar as idéias, e o cheiro gostoso de mar que me faz relaxar e me entregar. Ou pode ser ainda um furacão, que me envolve e me cega para qualquer coisa que não seja meu desejo por você, desejo de ser tua, de ser arrastada pelo teu vento, mesmo que isso deixe marcas, talvez porque isso deixe marcas.

O que resta em mim, quando você passa ventando, é uma pedra um pouco mais leve. Teu vento leva um pouco do meu peso. Fica mais possível me deslocar sem rumo certo. Então penso que faria sentido que, mesmo tendo medo, eu quisesse te prender, segurar seu vôo do meu lado, pra não me afastar dessa sensação de liberdade e vida que você me traz. Mas te prender é te perder. E me vejo subitamente assaltada pela necessidade não de te segurar, mas de escrever, de me declarar e te declamar, de admirar e velar seu vôo.

*Essa é a primeira de uma série de cartas entitulada "Cartas ao Vento".

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Eu (des)espero, você (re)volta.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Perco-me em você

Quanto mais palavras lhe entrego menos sei se sou eu que as dou, ou elas que me dão. Seja o que for, é dado assim, meio sem jeito, quase recuando, sem saber e quase sem querer, que esse é o jeito que é possível me dar. Porque ao dar, palavras e a mim, eu perco o controle que ilusoriamente tento manter. Perco a possibilidade de fazer sozinha uma música que não é mais só minha .Perco minha certeza na sua dúvida. Perco-me em você.