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quinta-feira, 3 de março de 2011

Fala alguma coisa!

- Só vim aqui para avisar que essa é a minha última sessão.

Silêncio.

- É sério, não vou mais voltar. Não adianta nada. Aliás, não só não adianta como atrapalha. Desde que comecei a vir aqui tenho enlouquecido mais e mais.

Silêncio.

- Tudo bem, se você falasse alguma coisa diria que não estou de fato mais louca, só que agora me dou conta de coisas que antes não dava, blá blá blá. Mas não importa, o fato é que me sinto mais louca.

Silêncio.

- Vê, até isso é estranho, “sinto”, eu não sou uma pessoa de sentir. Eu sei, eu penso, eu entendo. Não gosto desse monte de sensações e sentimentos me atrapalhando. É horrível isso, esse não saber, não conseguir entender. Não consigo planejar mais nada. Nem o que vou fazer aqui, uma simples sessão de poucos minutos. Tinha decidido exatamente o que dizer, estava muito claro que não deveria voltar aqui. Afinal, viria por que, pra enlouquecer mais? Mas agora já estou em dúvida, será que não devo ficar pelo menos até organizar um pouco esses sentimentos todos?

Silêncio.

- E você nem me ajuda, não me diz o que fazer, nunca! Fala alguma coisa!

- Vou te esperar na quinta-feira, no seu horário de sempre.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Discurso do Rei - o que restou.

Preciso começar esse texto avisando que não vou fazer resenha, análise, etc do filme em si, até porque nem saberia, vou falar apenas do que o filme me causou.

Contexto mínimo: o protagonista do filme, Albert, é um príncipe e segundo na linha de sucessão ao trono da Inglaterra. Seu pai é o rei George V e Albert tem um irmão mais velho que é quem assumirá o trono quando o pai morrer. E Albert é gago. Desde sempre, ou pelo menos desde que se lembra.
A gagueira é protagonista do filme tanto quanto Albert. É o sintoma que fala o que ele não pode - quase literalmente. E foi justamente isso que tanto me tocou do filme, e que ainda está ecoando: a solução de compromisso do sintoma, o que fazemos para não assumir nosso desejo. Albert não nasce livre: ele é um príncipe, tem mil compromissos de todos os tipos, morais, sociais, familiares. E a gagueira surge na sua dificuldade de falar por si, de dar-se voz e viver estando nesse lugar que lhe é dado sem tornar-se prisioneiro dele. No filme talvez seja mais fácil perceber isso pela caracterização da personagem, a realeza e tudo o mais. Mas, na verdade, esse é o grande dilema de todos nós.
Todos nascemos já tendo um lugar. Já fomos sonhados - ou não, pensados, esperados, palavras de outros já nos definem. É nesse mundo que nascemos, ninguém é uma tábula rasa e o que nos resta é assumir esse lugar, seja correspondendo a ele ou criando um outro. Mas temos que ocupá-lo e, de lá, agir conforme nosso desejo (desejo em termos psicanalíticos, que não é o que queremos ou gostamos ou achamos legal, mas o que nos define e nos move). E aí está a encrenca. Porque se estamos na neurose, agir conforme o desejo não é simples. Enrolamos, damos nós, voltas, tentamos fugir... E o sintoma entra nisso. Albert é gago. O rei tem compromissos públicos, faz transmissões de rádio, precisa ter boa oratória. Logo, Albert não pode ser rei. Mas, de alguma forma, desde o início, percebe-se que o desejo dele está nisso. É o mesmo ponto, sempre, o que mais tememos e o que desejamos. Daí a dificuldade.
Termino então aqui na esperança de que, com sorte, eu possa, eventualmente, ser quem o eu é. *

*"Eu sou quem o Eu é." é uma frase de Lacan, do seminário XVI, "De um Outro ao outro."