terça-feira, 22 de novembro de 2011

resto

Nada que sinto é sucinto.

Tudo que penso é imenso.

Tudo que minto é verdade,

e muito do que quero é vaidade.

Algo do que sonho, pressuponho

E quando muito espero, exagero.

Tudo o que sei é relativo.

Nada do que vivo é absoluto.

Então, o que sobra?

O resto.

Que, sendo nada, é tudo.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Abro os olhos, mas continuo sem enxergar. Não me acho onde procuro, e só me encontro comigo lá onde nunca estive. No segundo seguinte o lá não é mais lá, mudou de lugar ou fui que mudei? Não sei. Nada, não sei nada, não sei nadar e me sinto buscando ar, quase me afogando no mar de sentimentos que me inunda o peito. Busco as palavras, agarro-me a elas como se fossem barcos salva-vidas, como se pudessem me resgatar e devolver-me à terra firme. Ilusão, a terra da vida nunca é firme. Não adianta fazer planos, o terreno em que caminho é acidentado demais, todo passo pode ser em falso, e cada queda inevitável é a chance de um novo começo. Levanto, pé ante pé, fé não sei bem em quê. No sujeito, no desejo, na distração que leva ao ato e a atadura que estanca o sangue me dá força pra continuar. Sigo. Não por saber aonde ir, nem sequer por querer chegar, mas porque... Por quê mesmo? Não importa, não sei se há motivo, continuo apenas, caminhando a duras penas, penas perdidas no último voo, penas que começam a nascer mais uma vez, talvez por isso eu siga, porque há quem diga que a vida só acontece uma vez e prefiro me perder lá do que só me encontrar, a sós, aqui.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Ódio?

Eu só sei escrever sobre amor. Sou uma pessoa doce, melosa e brega. Tudo que escrevo cai nesse mesmo tema. Será que é isso mesmo? Na verdade sou muito menos doce do que gostaria, ou do que acho que deveria ser. Sou chata, intolerante, e altamente crítica. E não só amo. Eu odeio, fico irritadíssima e sei ser muito má. Só que acho isso ruim, então tento disfarçar. Por exemplo, estava agora mesmo irritada por sentir que não tenho escrito nada de novo, e ao mesmo tempo dizendo que não consigo me imaginar escrevendo outra coisa. Quando me defino assim, essa pessoa que só fala de amor, acabo me limitando. Se eu sinto raiva, se odeio, por que não falar disso também?

Então me veio a seguinte formulação: o ódio movimenta o mundo tanto quanto o amor. Dizem que a fé move montanhas, mas mesmo os religiosos são altamente influenciados pelo ódio. Todo o terrorismo atual e as guerras “santas” da história estão aí para provar. Parece loucura pensar que diferenças provoquem ódio e que um sentimento gere tanta destruição. Talvez por isso a dificuldade de falar de ódio, e minha resistência até mesmo em pensar nisso. Mas o fato é que todos nós odiamos. E como há infinitas formas de amar, também há um sem número de maneiras de odiar. Acho que aí reside a principal questão: o vilão não é o ódio, é o que fazemos dele. Por exemplo, eu estava aqui agora muito irritada. Com raiva, odiando um monte de coisas, pessoas, e até a mim mesma. E daí eu comecei a escrever. E, enquanto escrevia, as palavras correndo, comecei a pensar em coisas novas, ficar curiosa comigo mesma, com as minhas acepções acerca do ódio e de outros sentimentos ruins. Então tão repentinamente como me tomou, o ódio me deixou. Claro que nem sempre é assim, e não é possível fazer disso uma fórmula: quando odiar, escreva. O que aconteceu agora comigo foi apenas uma das possibilidades de lidar com o ódio. Mas basta uma para mostrar que não é preciso temer o ódio, a raiva ou qualquer sentimento. Ocorre-me agora que o medo é inclusive um fator primordial do ódio. Quantos odeiam o diferente por terem medo dele? Do que eu tenho medo quando evito falar de sentimentos e sensações que julgo errados? Temo me desconhecer, temo que ao trabalhar com significantes novos eu me desencontre de quem acho que sou. Só que agora, depois de escrever essas linhas que ainda nem sei ao certo que efeito terão em mim, tenho a certeza de que foi bom me desencontrar. Porque só assim me encontrei nova. E saí do castelo de conto de fadas que eu mesma criara, mas que mais do que me proteger, me prendia.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Não são assim todos os finais?

“É impossível viver e pensar ao mesmo tempo.” (Gonçalo M. Tavares, “O Homem ou é tonto ou é mulher")

"O homem no meio da escada hesitava há vários dias entre subir e descer. Os anos passavam e o homem continuava a hesitar: subo ou desço? Até que certo dia a escada caiu." (Gonçalo M. Tavares, “O Senhor Brecht”)

Esses dois trechos do Gonçalo Tavares têm me feito pensar: quanto tempo nós passamos – e perdemos – pensando? Planejando, tentando entender, buscando acertar? Eu sei que eu perco muita vida assim. Tudo que me acontece eu tento enquadrar em algum lugar, tento organizar dentro de um plano de vida que eu acho que deveria seguir. Tenho medo do erro, medo da impossibilidade de voltar atrás. Medo de perder. Só que esse tanto de medo acaba me paralisando tanto que perco a chance de viver. Continuo sem poder voltar atrás e o que é pior: sem ir para frente, ou nem mesmo dar um passinho para o lado. O pensamento é uma prisão que crio tentando proteger-me do imprevisível. Mas não é possível, o imprevisível, o acaso, o incontrolável, tudo isso é parte inexorável da experiência humana. Mas mesmo sabendo disso, não adianta: continuo tentando me esquivar. Fujo tanto que acabo parada no mesmo lugar. E sempre que ouço alguém como Gonçalo falando me assusto: como é possível viver assim? Simplesmente fazendo o que tem que ser feito, escrevendo o que tem que ser escrito, falando o que lhe vem à cabeça e só aí se encontrando com suas próprias decisões? Admiro muito quem consegue agir assim. Eu estou sempre atrás de certezas. Atrás de garantias. Atrás. Estou atrás de mim, atrás das dúvidas e dívidas com as quais não quero arcar. Mas a vida sempre cobra seu preço. Só posso viver e ser feliz às minhas custas. Se evito pagar o preço do erro, o preço do risco, sou cobrada pela procrastinação e o tempo que passa e não arrefece.

Por isso, por hoje, tentei deixar-me ir pela fala de Gonçalo. Escrever o que me atravessa sem tentar organizar o fim, por mais que isso doa. E me parece agora um final abrupto, mas penso: não são assim todos os finais?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Luto

Luto para escrever esse texto. Reluto por não querer escrever as palavras que têm me escrito. Temo dizer o que não quero e, talvez, o que quero também. Teimo em dizer que não sei nada. Mas luto, reluto, temo e teimo por não conseguir entrar em acordo comigo. Parte de mim está com raiva, quer que essa história acabe e a vida siga. Outra parte quer entender, ainda, os pormenores, detalhes (in)significantes que fizeram nós, mas não deram laço. E há também a parte que não liga pra raiva, não quer entender nada, e só quer viver o que resta de amor, viver o amor que é sempre resto. E há ainda eu. Que não consigo escrever as frases acima sem encher os olhos de lágrimas. Que odeio não ser capaz de dar fim a confusão. Que entendo, não entendo, e odeio as duas coisas. É, parece que há muito ódio por aqui. Mas é que só quem ama é capaz de odiar. E eu amo, muito. Todas as minhas partes te amam e te odeiam ao mesmo tempo. Todas sentem você. Então teimo. Teimo em dizer que te odeio. Temo dizer que te amo. Reluto em dizer por que luto. Luto para não viver o luto. Luto para não viver sem você.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Confraria dos Trouxas

A partir de hoje tem post meu toda quarta na Confraria dos Trouxas . As postagens dessa semana são baseadas na música "Prato de Flores" (Nação Zumbi) e estão super legais, confere lá!

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Impensável

“Eu sei muito bem o que você faria.”

Ele disse isso e eu ri. Nem eu sei o que faria. É claro que digo que sei, que agiria de tal modo, que nunca faria tal coisa, que sempre faço assim. Mas digo isso pra me acalmar. Gosto de fingir que antevejo exatamente como me comportarei em qualquer situação. Perco horas, dias, anos de vida assim: imaginando, prevendo, decidindo quem eu sou. Só que aí a vida chega, cheia de acasos e situações imprevisíveis. Ou situações que previ mil vezes, todos os detalhes como imaginei, tudo encaixando perfeitamente. E aí eu. Um eu que não sei que sou, vai lá e responde de forma inesperada. Uma palavra fora do script sai da minha boca. Um gesto impensável me escapa. Impensável: palavra das mais assustadoras pra mim. Eu que me escondo atrás de pensamentos, tentando não ter que me deparar com a minha própria imprevisibilidade. Porque eu sei que a vida é imprevisível e todo esse blá blá blá que eu mesma repito incansavelmente. Mas o que me assusta não é isso. Meu problema não é que aconteça algo fora do previsto, mas que eu reaja de um jeito diferente. Por exemplo, acaba de me ocorrer algo tão estranho que quase ignorei, mas vou escrever. Pensei: quanto mais tento prever e antecipar, mais me apavoro ao reagir de forma diferente. Sem padrões previamente estabelecidos, posso ter qualquer atitude que não estarei me contradizendo. Quase sinto alívio. Por quase um segundo. E aí penso que, para isso, terei que parar de pensar. E viver. Não o futuro ou o passado, não analisando o que já foi para preparar-me para o que virá, mas o agora. Chego a rir do clichê, “viver o presente”. Mas eu sou feita de clichês. E também não sou. Eu penso demais, fujo, me escondo, mas também ajo sem pensar, fico, me exponho. Eu sou todas essas contradições, e outras mil. E por isso vou agir de forma inesperada muitas vezes. E vou agir exatamente como ensaiei em outras tantas. Por isso, vou continuar pensando, planejando, ensaiando. Mas, a despeito de mim, às vezes, me pegarei vivendo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Verdade?

Desde o dia em que assisti o filme “O Bigode”, de Emmanuel Carrère, tenho pensado sobre a verdade. No filme, passamos o tempo inteiro sem saber qual é a verdade de fato, e nem ao final dele essa resposta é dada. Afinal, o que é a verdade? Ela existe? A verdade só tem esse estatuto se nós o damos. O que é verdade para mim pode não ser para você. E isso não quer dizer que um dos dois esteja mentindo. Acontece que não há nada que envolva o humano que seja objetivo. Tudo é sempre influenciado pela nossa percepção, pelo que acreditamos, pelo que sabemos, e, para complicar ainda mais, pelo que não sabemos também. Nosso inconsciente tem papel de protagonista nas nossas verdades e mentiras. Por isso sempre que mentimos dizemos muito de nós. Qual foi a história escolhida? A desculpa dada? O que omitimos? Tudo isso tem ligação com algo de nós que desconhecemos.

Outro dia escrevi sobre como calar não era mais seguro do que falar. Pois mentir também não é mais seguro, nem mais perigoso. Contar, seja o que for, sempre cria laços. Tudo que dizemos e que nos é dito pode ser falso ou verdadeiro, pode inclusive ser verdadeiro quando foi contado a primeira vez e já não ser mais da segunda vez. Tudo pode ser falseado ou tornar-se verdade. Então essa verdade verdadeira que muitas vezes buscamos é utópica. A imparcialidade é uma utopia, tudo que diz respeito ao humano é arbitrário.

Sempre que alguém lhe conta algo você tem duas alternativas: acreditar ou não. Se formos checar a cada vez os fatos, buscar outras fontes, tentar fazer com que a pessoa seja “pega na mentira”, quem fica preso somos nós. O que importa é o discurso, não o conteúdo. E, se criar uma ficção é fácil, mantê-la não é, e tudo que for feito na tentativa de sustentar essa “mentira” pode dizer mais que a verdade não dita.

Já ouvi diversas vezes que sou muito crédula. E que tanta credulidade seria incompatível com uma pessoa inteligente. Discordo. Entender que o mais importante é dizer, e não a veracidade do dito, é algo que só vem da sabedoria de que não se pode saber tudo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Fecho-me com cadeados de silêncio.

Muitas vezes calo por medo. Medo de não saber o que falar, de falar e me arrepender, de falar errado. Mas calar não é mais seguro do que falar. Calar e não fazer tem tantos efeitos quanto falar e fazer. Basta nascer para que algo se ponha em movimento e não termine nunca, não importa quantos anos passem. O que falamos e calamos, fazemos ou deixamos de fazer, continua acontecendo em nós e nos outros por muito mais tempo do que gostaríamos ou temos intenção, ou mesmo muito além da nossa existência física. Nossos efeitos são para além de nós, a inércia desencadeada por nossas atitudes e palavras é contínua e imprevisível. Ao começar esse texto não tenho como saber onde ele me levará. E, se publicado, passará a tocar não sei quantas pessoas, das maneiras mais diferentes imagináveis e inimagináveis, e não tenho controle algum sobre isso. Por isso calar parece mais seguro. Mas é apenas ilusão. Não falar o que preciso é tão ou mais perigoso. As palavras ficam entaladas e perco a capacidade de respirar. As palavras precisam ser ditas para que o mundo siga, para que haja a chance de algo além da repetição contínua. Mas é justamente isso que temo: o novo, do qual nunca sei. E tento então evitá-lo não fazendo nada. Mas fazer nada é fazer. É evitar riscos de perder, mas não ter a chance de ganhar. Fazer nada, falar nada, é encher ainda mais de vazio essa existência esburacada que é a minha. E há momentos em que o vazio parece transbordar de letras e atos, sonhos e fatos, que existem na minha cabeça e imploram para serem tornados reais, para existirem no mundo, para desempenharem sua tarefa de tocar os outros, de desencadear o que está trancado. Fecho-me com cadeados de silêncio. Calo, por saber que as palavras são como chaves: quando ditas abrem portas. E não sei o que essas portas encerram. Que segredos estarão escondidos no silêncio? Aqui, descobri um: calo por medo. E, agora descoberto, não posso mais ignorá-lo. Agora exposto, não posso mais desviar o olhar. Ali está meu silêncio, que fala muito, me olha e diz: vai recuar mais uma vez?
Quero recuar. Retroceder, retornar, desfazer. Repetir. Mas já não posso. Já falei, já escrevi, e as palavras me constrangem à atitude. Falo, então. Escrevo. E espero agora as consequências do que iniciei aqui, e que terminará muito além do fim do silêncio que me fez começar.

sábado, 16 de julho de 2011

Ou é ou não é.

“Você anda bem feliz, né?”
Li essa frase e me assustei. A felicidade me assusta. Sempre me assustou. Temo tudo que não pode ser analisado, entendido e explicado, e a felicidade não se presta à medição alguma. Ocorre-me agora que o amor também não. No entanto, eu me considero uma pessoa romântica até demais. Mas se for sincera, sincera mesmo, aquela verdade nossa que nem conhecemos direito, teria que dizer que tenho também medo do amor. E, o que é pior, não tenho só medo que dê errado: tenho medo que dê certo, também. Aliás, certo e errado são conceitos que tem me tomado muito nos últimos dias. Porque eu acho que faço tudo errado, principalmente quando amo. Aceito o que não devia, falo o que não podia, calo o que teria que dizer. Mas todos esses “devia, podia, teria” são racionalizações. São idéias e ideais que uso como se fossem tijolos e cimento necessários para construir. Um muro ou uma casa, não sei. Não sei nem se construo para me proteger ou para me prender. Acho que as duas coisas. Construo pensando que estou me protegendo, quando na verdade estou me prendendo. Afinal, proteger-me do que? Da dor, do fim, do não-saber? Mas há vida sem isso? Fujo da falta de sentido tanto quanto do excesso de sentimento. E escrevo muita besteira tentando entender e explicar. Excesso de sentimento, desde quando isso existe? Não se ama muito ou pouco. Ou ama ou não ama, e amando há todas as constantes inconstâncias de sentimento: dentro do amor cabe quase tudo, e percebo agora que cabe o medo também. O medo que mata o amor é o que está fora dele. Do lado de dentro, o medo é só mais um dos milhares de sentimentos que fazem do amor, amor. Sentimentos ruins, bons, certos e errados. Não há quantificação nem qualificação para o amor. Ou é ou não é. É. Amo. Por isso faço tudo errado, por amor. E, por amor, tudo dá certo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Escrevo para dizer o que não sei falar.

Gostamos de recordar e pensar no que não percebemos à época, imaginar que tal coisa poderia não ter acontecido, ou que tudo seria diferente se apenas tivéssemos sabido. Mas é sempre impossível saber onde terminará o passo ao levantar o pé. Só na linha de chegada é que descobrimos qual era o nosso destino, porque ele não existe sem a caminhada.

Falo disso porque era o que estava fazendo agora, antes de começar a te escrever essa carta. Estava me lembrando do nosso reencontro virtual, o primeiro contato depois da noite em que nos conhecemos. Foi uma conversa curta, em que me senti completamente segura, protegida do real dos seus olhos e do desejo. Apenas nós e as letras.

Como eu poderia saber? Naquele momento era impossível desconfiar que seriam justamente as palavras que me derrubariam de vez. Afinal, como prever que as suas palavras iriam inscrever-se em mim de tal forma que delas nasceriam novas palavras, e outras, e tantas, em mim, em você, atando-nos um ao outro cada vez mais? Quem diria que mais de um ano após aquele jantar, com aquele fim, sem nenhuma indicação de continuidade, eu estaria de madrugada escrevendo e endereçando a você palavras digitadas em uma tela de computador? E, mais que isso, que seriam palavras assim, íntimas, envergonhadas, que carregam em si um pedaço meu? E agora, o que será que acontecerá com essa carta? Nem eu sei que rumo ela tomará ou qual será o seu fim, pois escrevo por necessidade de te dizer o que não sei falar.

Tento me lembrar para poder explicar. Mas não sei dizer porque continuo ao seu lado. Você roubou-me o que eu tinha de mais caro - minha adorada ilusão de controle - e ainda assim só o que eu quero é você. Ou talvez não seja "ainda assim", talvez seja "porque" você tomou a minha maior ilusão que te quero tanto. Talvez seja pelos motivos escritos, reescritos, inscritos, que me assaltam de forma tão intensa nos momentos mais inesperados. É engraçado, escrevi isso e imediatamente me vieram sua imagem e sua voz dizendo: "Mas você não acha que isso é porque ..." e dá uma explicação que não consigo imaginar. E é exatamente isso. Porque eu te lembro, te sonho, te desejo, mas não sei te prever. E nem quero. Talvez fosse isso o que eu precisava te dizer. Que eu não sei. Que tenho mil motivos e nenhuma explicação. Que estar com você é uma escolha feita a cada dia, a cada vez. Ao seu lado caminho de olhos fechados, e dou o próximo passo sem medo. Porque na nossa história o tropeço é sempre um novo começo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Feminino

Essa semana tem post meu lá no Feminino , confiram!
:)

terça-feira, 21 de junho de 2011

Precipício, príncipe, princípio.

Há momentos em que a minha falta de controle me assusta tanto que tenho vontade de ficar parada, muda, como se assim pudesse evitar qualquer passo em falso. É difícil aceitar que fazer nada tem tantas implicações quanto fazer alguma coisa. Fazer nada, calar, não escolher, implica em continuar, repetir, manter o padrão, e isso costuma me acalmar - mesmo quando o padrão é horrível.
É muito mais fácil lidar com uma certeza ruim do que com uma imprevisibilidade qualquer. Escrevo isso e acho um absurdo, e que é claro que não é assim. Mas é. Pelo menos para mim, na maior parte do tempo. Sinto como se minha vida pudesse ser vivida dentro da minha cabeça. Então, de repente, alguma coisa me empurra e me tira do torpor. Por exemplo, um ato falho. Ontem ia escrever precipício e escrevi príncipe. Desde então essa troca de palavras tem me invadido - é exatamente isso que sinto, uma invasão. Qualquer ato não planejado, seja uma palavra fora do lugar, uma atitude inesperada, minha ou do outro, me assalta e sinto a perda daquele controle imaginário a cada vez.
Era de esperar que a essa altura eu já tivesse deixado esse controle ilusório de lado, já tive mais do que provas de que não é possível controlar a vida. Algumas vezes foram boas surpresas, outras imprevistos difíceis, mas nunca pude evitá-los. A única possibilidade que me resta é lidar com o que me acontece da forma que me for possível. Mas não me conformo. Acho pouco. Quando digo que a inteligência é um problema muitas vezes riem de mim, mas realmente ela me atrapalha, e muito. Por conseguir resolver tudo em teoria, acredito que deveria ser capaz de fazê-lo também na prática. Por saber muito, acho que deveria poder muito também. Mas quanto mais sei, menos vivo. Quando mais entendo, menos sinto. E enquanto isso o tempo passa. O tempo passa, a vida acontece, faça eu o que fizer.
Ontem ao escrever esse ato falho pensei: chega, hoje não vou escrever mais nada, não consigo escrever nada direito. Foi então que me dei conta que tinha, nessa troca, me escrito muito mais do que se tivesse completado a frase original. Resumi ali minha sempre presente ambiguidade entre pular e cair, amar e fugir, acreditar e desconfiar. E, mais ainda, depois de precipício e príncipe, me veio a palavra princípio. Começo e fim, medo e desejo, todos esses contrastes que estão no mesmo lugar. O ponto é sempre o mesmo, o que desejamos e tememos, o que nos define e nós definimos. Aquela palavra, estranha, inesperada, errada, me escreveu. E, ao tomá-la e reconhecê-la como parte - mesmo indesejada - de mim, pude me inscrever, mais uma vez no mundo que existe fora da minha cabeça. Esse mundo que tanto me assusta, de que tanto fujo, mas que busco, querendo ou não, tornar-me parte.

domingo, 19 de junho de 2011

Do lado de dentro.

Estávamos em pé, do lado de fora, encostados à parede do prédio, o abismo aos nossos pés. Todo o cenário era estranho, o prédio desconhecido, não era o meu e nenhum dos seus. Conversávamos. Não me lembro o conteúdo da conversa, mas falávamos de nós. Discutimos. Você falava crueldades, aquele tipo de coisa que só falamos a quem amamos; não somos cruéis com quem não nos importa. Eu, apavorada, chorava. Você quase ria. Ridícula. Foi disso que você me chamou. Acreditei e te odiei. Odiei que você não entendesse que era tudo por você. Odiei que você entendesse que era tudo por você, e por isso ficasse tão irritado. Odiei não entender nada e me exasperei quando você disse que também não entendia. Pausa. Silêncio. Suposta calma. Tento reconciliar – porque acho que não sei fazer outra coisa – e novamente a raiva. Tua e minha. Mais silêncio. Cansaço. Sozinha, sinto o desespero da espera. Certeza de que não sairemos dali vivos. O chão era muito pouco, qualquer passo em falso nos faria cair. Paraliso. Tenho medo de falar, pois falar é deslocar, e não quero morrer. Fico sozinha com meu medo, não arrisco aproximar-me de você. Mas te olho. Você sorri. Nós caímos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A medida do impossível

“- Vamos pegar uma mesa? O pessoal já está descendo.”

E se eu tivesse dito não? E se respondesse que preferia esperar ali pelos outros? E se o “pessoal” realmente descesse logo, e não duas horas depois? Peguei-me fazendo essas perguntas como se fossem possíveis. Como se tudo já não tivesse acontecido do exato jeito que foi. É tanto acaso, tanto não saber, que me assusto. A displicência com a qual vivi esse e os primeiros encontros me dá medo. E se não existisse facebook? E se não estivéssemos online no mesmo momento? Tantos “e se” que parece quase um milagre termos nos encontrado.

Milagre ou não, o fato é que, um ano depois, estamos aqui. Um ano depois, minha vida não tem nada a ver com a vida que eu levava na noite em que nos conhecemos. E boa parte disso é por sua causa. Não discorde, não negue, apenas leia. O nosso encontro mudou a minha vida não só pelo amor, pela paixão, pelos beijos e todas essas coisas boas e felizes que vivemos. Mas porque com você aprendo a ver a vida de um jeito mais leve. Na primeira carta que te escrevi comparei-me a uma pedra, e você ao vento, e disse que só o que eu queria era admirar teu vôo. Mas o que aconteceu foi melhor. Você me ensinou a voar. Não tenho ainda grande autonomia de vôo, não me arrisco a dar rasantes, mas já consigo flutuar um pouco. Volta e meia caio, afinal uma pedra ainda é uma pedra, mesmo quando desfeita em grãos de areia. A cada queda me desfaço um pouco mais, e logo corro tentando me colar e pensar-me inteira mais uma vez. Mas quando me acredito inteira não vôo, a completude fictícia pesa demais. Penso que é necessária uma medida exata para que eu não me desfaça completamente, mas ainda assim consiga voar. Pensar em medida me remete à matemática, então tento calcular, mas não há razão que resulte na medida do impossível. E essa medida do impossível é a mesma que uso tentando controlar tudo que sinto por e com você.

Porque muitas vezes acredito que posso mesmo controlar. Que conseguirei dosar como e quando sentir amor, raiva, desejo, carinho... Mas a verdade é que não controlo nada. Sinto tudo ao mesmo tempo, mudo de idéia e me contradigo mil vezes. Nada com você é seguro, garantido, tranqüilo. Segurança, certeza e garantia eram as minhas palavras. Tudo em mim é (ou era) muito sério, pesado, medido corretamente e arrumado milimetricamente. Agora não consigo mais ter certeza da pontuação que usei na frase anterior. Minhas interrogações só aumentam, os pontos finais tornam-se reticências, e as vírgulas tentam desesperadamente pausar o ritmo acelerado do coração antes que ele exclame à exaustão.

E no meio, e ao centro, de toda essa desarrumação está você. Não foram só as minhas pilhas de livros que nunca mais ficaram organizadas depois que te conheci. Eu nunca mais consegui me organizar. E o mais estranho disso tudo é que eu hoje gosto de entrar em casa e ver livros no chão, fora do lugar. Gosto de me pegar fazendo e pensando coisas que nunca considerara antes. Divirto-me até com meu destempero que me enerva, mas que vira graça no momento que você sorri. Quando você ri das minhas loucuras, me quebra. Quando você implica com a minha mania de organização, me derruba. Quando você puxa meu cabelo, me desmancha. Desde a primeira frase que te ouvi falar você me desconcertou. Você ainda me desconcerta. Aliás, acho que é isso: você me desconcerta tanto, que acabou me consertando.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Falta

"A vida é a sós - e, o que é pior, também a morte." Campos de Carvalho

Quando li essa frase do Campos de Carvalho pensei que ela seria o começo perfeito para um texto que estava escrevendo sobre solidão. O problema é que sigo escrevendo esse texto e não consigo terminá-lo. De vez em quando retomo as poucas linhas escritas, penso em mil coisas, mas na hora de escrever não sai, e o que sai não gosto e apago. Não acho que seja à toa. Falar sobre solidão, morte, vazio, tudo que evoca a incompletude e a finitude inerentes ao ser humano é muito difícil.

Ocorre-me agora que um dos problemas, acho que o meu inclusive, é que falamos tentando não criar, mas apagar, desmerecer, superar. É muito comum falar de morte e solidão apenas como um lamento ou então como motivação para superação. Escuta-se muito por aí que “tudo passa”. Não acho que seja verdade. Lembrei-me de uma frase que me parece mais próxima da verdade: “Tudo passa, neste círculo infinito. Nada passa.” (Marcos Bassini). Isso me remete ao fato de que sim, as coisas passam, mas deixam marcas. Passar não significa apagar. Tudo que acontece, e muitas vezes o que não acontece, deixa marcas indeléveis, muitas vezes bem enterradas, escondidas no fundo do inconsciente, mas que sempre retornam.

Quando perdemos alguém, seja para a morte ou para a vida, perdemos um pouco de nós mesmos também. E essa perda deixa marcas, a presença do pedaço que falta, e que vai estar sempre ali. Tentamos moldar, preencher, esconder, mas somos feitos de mais do que carne, e a matéria humana não é tão maleável assim. Não há palavras, sentidos, ou explicações suficientes, a falta sempre escapa.

Quando falo da falta não me refiro apenas à morte ou outras perdas concretas, falo também da solidão, esse “A vida é à sós” de que falou Campos de Carvalho, a noção de que no fundo há um vazio que nunca será preenchido. Então, se não há preenchimento possível, e se nada passa, por que falar, por que escrever? Não para apagar, mas para contornar. Para construir com palavras uma borda que seja no vazio, uma fronteira feita de laços. Laços que quando são reais não se desfazem com a ausência, nem com a morte, eles contornam, amarram, seguram. Nascemos e morremos sós, mas as palavras já nos diziam antes de nascermos e continuarão nos escrevendo depois de morrermos. E é por isso que escrevo. É que, quando escrevo, não estou só.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Silêncio.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

O pensamento, o pulo e a queda.

O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda.

Escrevi essa frase alguns meses atrás e desde então ela tem me acompanhado. Escrevi-a para falar de um outro, de um personagem, mas sempre que escrevo, mesmo falando do outro, estou falando de mim. Nesse caso, é como se tivesse escrito um mantra, que devo repetir a cada dia, para que não que me esqueça: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Porque eu escrevi mas não acredito, pelo menos não na maior parte do tempo. Eu passo dias, semanas, meses, presa ao pensamento que segura o pulo. Acho que se analisar bem, se conseguir entender exatamente como pular, escolher o local, estabelecer a posição do corpo, descobrir a velocidade do vento e a temperatura do sol, o pulo vai ser tranqüilo, e a queda, um simples aterrissar nas nuvens. Só que esse pensamento todo me custa muito. Fico nervosa com a possibilidade de que alguma coisa escape, de que alguma variável não tenha sido bem analisada. E penso que preciso de mais tempo para ter certeza de que tudo vai correr bem, e também que tenho que pular logo, ou as condições vão mudar e meu estudo terá sido em vão. As dúvidas me angustiam, e a angústia é das piores dores: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Será que fui eu mesma quem escreveu essa frase? Ou foi ela que me escreveu? Afinal, nem sei de que eu falo, mas sei que estou ali, no pensamento, apavorada com a queda. Medo de quebrar, de não conseguir levantar, de não ter quem me dê a mão. O problema é que se não pular não quebro, mas também não ando. Fico parada, na beira do precipício, e enquanto isso a vida passa por mim. E ao escrever isso me assusto com a possibilidade de que a vida passe e eu nem veja. O pensamento cega. Fecho os olhos não para pular, mas para pensar: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Qual é a saída? Há saída? Percebo que penso tentando encontrar a saída mais fácil, mais segura, mais indolor. Mas ela existe? Suspiro e digo, em voz alta, para tentar me escutar: não. Viver se escreve com risco. Não há evitação possível da dor que não evite também a vida. E quero tanto tentar não evitá-la. Mas quero e não quero. Presa no conflito entre o medo e o desejo, paro, penso. Penso até que quero pular, mas não pulo. E os pensamentos já me controlam de novo: o que é pular, como faço, como saberei que pulei... "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

Pular, agora, é escrever esse texto. É soltar essas palavras e conviver com os efeitos delas que restarão em mim. É endereçá-las e descobrir o que elas causarão no outro. É cair, porque sei que elas não dirão tudo, e nem me traduzirão do jeito que eu quero. Mas não há outro jeito. Se é preciso me inscrever nessa frase - e é preciso - tenho que pular com ela. Mesmo sabendo que um pulo não garante o próximo. E que a cada vez precisarei escrever, e viver, de novo: "O pensamento que segura o pulo dói mais do que esborrachar-se ao fim da queda."

terça-feira, 24 de maio de 2011

Resenha: "Nenhum Olhar", José Luís Peixoto


"Não tenho medo das palavras. Vê como digo morte: morte morte morte morte morte. Repito-a assim e roubo-lhe o sentido. Roubo morte à morte."

Eu, ao contrário de Peixoto, confesso que tenho medo das palavras. Tenho medo de sua incompletude, da impossibilidade de ser perfeitamente compreendida, da eterna dissonância entre o que se quer dizer, o que se diz, e o que é escutado. Além disso, a impossibilidade de controlar as palavras uma vez que essas deixam nossa boca - ou nossos dedos - é algo assustador. Essas palavras aqui, por exemplo, podem fazer com que alguém resolva ler esse livro, ou desista de lê-lo. Então como posso escrevê-las, sem ter certeza de seu efeito para cada um que as lerá? Só posso, e só o faço, por me submeter justamente a essa alteridade que a dimensão da palavra traz tão forte. Só digo o que digo aqui, porque preciso part-ilhar da minha experiência na leitura desse livro. Preciso deixar que essa parte de mim se vá em palavras, para que o livro reste em mim como efeito.

Todo esse devaneio não era - como nunca é - o que eu tinha em mente ao começar a escrever essa resenha. Mas como foi o que saiu de meus dedos irei deixá-lo aqui, em homenagem a Peixoto e sua liberdade com as palavras que tanto me encantou. "Nenhum Olhar" é um livro belíssimo. Tem uma história majoritariamente triste, mas a destreza do autor com as palavras é tão grande que mesmo a tristeza me causava uma certa alegria, um contentamento por poder ler o que ali estava escrito. E tem pelo menos três cenas incríveis, uma delas, na página 55, é uma das cenas mais belas que já li na vida, só de lembrá-la meus olhos já se enchem d´àgua.

No trecho que citei no começo da resenha, Peixoto diz que "Rouba morte à morte". Eu discordo; o que ele faz, através de suas palavras, é dar vida à vida.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"o que nos aproxima está além do sentido"

- Não consigo nem olhar pro lado.

No dia seguinte, acordei com torcicolo.

Essa poderia ser uma piada, e de certa forma é, mas aconteceu de fato. Há poucas semanas, comentando um texto, escrevi que nosso corpo, mais do que carne, é feito de palavras. Parece que meu corpo quis corroborar meu dito e ainda me mostrar que o “não conseguir olhar pro lado” metafórico, o das palavras, dói muito mais do que o torcicolo.

Algumas pessoas podem pensar que foi uma coincidência, ou que estou inventando, ou ainda minimizar, mas o efeito dessa tradução que meu corpo faz das palavras que digo me assusta, e muito. Se meu próprio corpo às vezes não entende o que eu quis dizer, quem vai entender? Aliás, o que significa essa expressão eu quis dizer? O que eu quis dizer não existe, o que vale é o que eu disse. Temos a tendência de contemporizar tudo: “o que vale é a intenção”, “eu não quis magoar”, “eu não sabia”. Não importa. Não faz diferença se não foi bem isso que eu quis dizer. Foi o que eu disse.

E, além disso, mesmo que eu explique perfeitamente o que queria dizer, nunca sei como o outro vai entender. Só sei que não será exatamente como pensei. Não há correspondência plena entra o que se diz e o que o outro escuta. Cada um é marcado pelas palavras de forma diferente. Ao ouvir a palavra diferença eu evoco alguns significados, você certamente diria outros. Não é porque você não me entendeu bem e preciso dizer de outra forma, é porque não há entendimento possível. Mas não acreditamos nisso, e seguimos nos comunicando assim, tentando o tempo todo nos entender, nos explicar, achando que esse é o grande objetivo da linguagem, que é a compreensão que nos une. Não é.

As palavras não nos ligam ao outro melhor se o entendimento for maior. O que faz laço, o que nos aproxima, está além do sentido. É o que a sua palavra desperta em mim, o que a minha letra causa em você. E isso não temos como controlar, por melhor que expliquemos. Só distraídos do entendimento é que dizemos o que mais nos marca.

Vejo agora como me desviei do que achava que seria esse texto. O corpo ficou lá em cima, as palavras me escreveram e me levaram para outro caminho, e eu segui. E não vou reescrever, em outro momento talvez escreva sobre a força das palavras sobre o corpo. Hoje, escrevi sobre a força das palavras em mim.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Além do Saber

- O problema é que você sabe demais.

Essa frase pura, destacada do contexto, pode significar, assim como toda frase, mil coisas. Poderia estar se referindo, por exemplo, a alguém muito qualificado com dificuldades de se colocar no mercado de trabalho. Ou a uma criança dispersa na sala de aula porque sua capacidade e conhecimento estão muito além do que é exigido ali. Poderia, ainda, fazer parte de um discurso cada vez mais comum de que uma mulher inteligente e de opinião forte assusta os homens.

Sobre cada uma dessas situações eu teria algo objetivo a dizer: concordar, discordar, fazer ressalvas. Opinar. Eu tenho opinião para tudo, ou se não tenho acho que deveria ter. Eu sei muita coisa e sou completamente apegada a esse saber. Acho que tudo deve ser feito depois de ser entendido, medido, etiquetado e organizado. Sou mestre em definir, classificar, organizar. Eu acredito que posso prever o que vai acontecer, como vou me comportar, como o outro vai agir. Muitas vezes eu acerto, mas na verdade nem é preciso acertar. Porque as expectativas são assim: você as cria e elas vão ser correspondidas ou não. São apenas duas opções, ambas previstas anteriormente. Indo bem ou mal, já sei o que vai acontecer.

Só que a verdade é que viver não tem nada a ver com saber. Eu sei de um monte de coisas, sei como resolver problemas, entendo tudo de tudo e continuo sem perceber o principal: que o saber não vale de nada nas coisas que realmente importam. O que nos move, o desejo, o amor, essas coisas vem de outro lugar. São coisas que caem sobre nós, tempestades que nos fazem voar se nos soltarmos, mas derrubam se tentamos nos segurar. E eu me seguro a maior parte do tempo. Seguro-me em teorias, previsões, planos. Luto a todo custo para que nada aconteça fora do que previ. Fecho a porta, as janelas, me sufoco, presa num ambiente de ar morno, morto, parado, rarefeito e viciado. Tudo por medo. E eu sei disso. Mas, mais uma vez, o saber não me adianta de nada.

Preciso me soltar. Preciso pular e cair até que o ar puro infle meus pulmões e eu consiga voar. O mais paradoxal – e real - é que sei que um dos pensamentos que me segura é o que diz: há uma chance de que você não planeje nada e tudo aconteça de um jeito ainda mais maravilhoso do que quando você previu que daria certo.

Quando escrevo é um dos poucos momentos em que me entrego a não saber. Quando escrevo sou marcada por outra coisa, por algo que me constitui, mas que eu não possuo. É além do saber. Releio esse texto agora, e sinto vergonha, acho que escrevi várias besteiras e que pareço louca. E acho que foi para isso que ele foi escrito. Para que eu fosse, mais uma vez, marcada pela verdade da minha neurose que tanto me segura. Para que eu pudesse sentir, como senti ao escrever o parágrafo acima, que a vida é maior do que eu, e isso é uma coisa boa. Para que as palavras escritas circulem, voem e sussurrem no meu ouvido: pode pular. Estaremos aqui.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Resenha: "Uma Viagem à Índia", Gonçalo M. Tavares


Melancolia contemporânea (um itinerário)

Não posso começar essa resenha de outra forma que não seja dizendo que Gonçalo é um gênio da literatura. Transformar um Épico sobre uma viagem à Índia, dividido em cantos e estrofes, num tratado sobre a vida contemporânea é quase inimaginável; mas foi exatamente o que ele fez.

O subtitulo do livro "Melancolia contemporânea (um itinerário)" é perfeito, e diz muito mais do livro do que o título em si. Porque muito mais do que viajar até a Índia, o que Bloom faz é um percurso de vida. Ele busca, como buscamos todos, respostas, sabedoria, amor, algo que lhe traga paz ao mesmo tempo que o empurre para a vida. Ele sai de Portugal fugindo de uma situação trágica e acredita que na Índia, tão mística e antiga, encontrará o que em casa não conseguiu. Acompanhamos Bloom então durante sua jornada, esperando e torcendo que ele encontre a paz e a felicidade - e a cada estrofe percebendo que a vida não é bem assim. O que me restou do livro é que não há esse Éden que buscamos. Preocupamo-nos muito com o que é a vida, com a busca da felicidade, com grandes acontecimentos importantes, e acabamos paralisados de tanto pensar, não percebendo que a cada dia a vida passa, e somos nós que não damos peso ao que nos acontece.

Através de Bloom, Gonçalo traça genial e minuciosamente o itinerário que nós, maníacos e melancólicos "pós-modernos" vivemos. E tudo isso com uma escrita ao mesmo tempo crua, irônica, leve e acolhedora. Como esses quatro adjetivos podem representar uma mesma escrita? Só lendo Gonçalo para sentir.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mosaico

- Já estou vendo que você é perigosa.

Quase um ano depois percebo quanto tempo e energia gastei tentando provar a ele – e a mim – minha resposta: não sou perigosa. Sou estável, confiável, leal, segura. Numa analogia que usei muitas vezes em relação a nós me descrevo como pedra. Mas de que pedra falo? Uma pedra enorme, parada, pesada, quase montanha, intransponível? Ou uma pedra de rio, que apesar de presa no mesmo lugar a cada dia muda, sendo lixada e moldada pela força das águas? Ou ainda uma pedrinha daquelas que resultam de britadeira no asfalto, tão pequena e leve que voa com o vento quase como se vento fosse?

Sempre julguei que era a maior, imutável, e por isso não oferecia perigo nenhum: o que podemos prever não nos assusta. A repetição acalma; por pior que seja, sabemos como lidar com ela. Mas hoje, quando me vejo, não me reconheço. Quando me penso, não me entendo. Quando me sinto, não me explico. Acho que poderia ser qualquer uma dessas pedras. Acho que sou todas. E me assusto. Porque não sei se sou perigosa. Perigosa para quem? Para o outro? Se nem eu sei quem sou, quem é esse eu que me habita, que corpo é esse que me pertence, mas não me comporta, como posso garantir ao outro que sou estável? Não posso. Não tenho mais garantias, nem certezas, e elas me faltam enormemente. A sensação é de que elas quando partiram me despedaçaram. E agora sou esse monte de pedaços, fragmentos de histórias que não se juntam mais harmoniosamente. Tento me colar e acabo criando um mosaico de mim.

Porque acho que preciso dar garantias ao outro? Porque acredito que, sem elas, ele vai embora. Porque ainda reluto em aceitar que é o desejo, e não o saber que une as pessoas. Porque eu preciso de garantias. Ou costumava precisar. Aí está meu maior medo, o grande perigo que represento: eu mudo. Mudo para não emudecer. E quando falo, as garantias se acabam. Quando abro a boca, ou mexo os dedos, não sei o que vai sair. Ao começar a escrever essas linhas, não sei onde vou parar. Não posso garantir que você vai gostar do que ler. Pode ser uma história triste ou pode ser uma declaração de amor. Qual delas te assusta mais?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O susto virou surpresa

(...)

É curioso pensar nas conseqüências dos nossos atos ou do que nos acontece quando o tempo decorrido nos afasta da situação. Ao escrever agora sobre aquela noite tive uma percepção completamente diferente da que me tomou quando ela era, ainda, o suposto último encontro, e mesmo quando, duas semanas depois, deixou de sê-lo.

Lembrava-me de um encontro cheio de poréns, atrapalhado, esquisito, mesmo que tenhamos conseguido rir da situação e não levá-la tão a sério. E achava que isso era uma coisa ruim, que um encontro desses significaria, mais do que qualquer coisa, o fim. Hoje, no entanto, acho que foi justamente esse emperrado que nos levou a um novo encontro. Não houve um fim propriamente dito naquela noite. Mas será mesmo que veio daí o desejo de um novo encontro? Não há como saber. Mas o que percebi é que desde então a história que construímos se parece muito com aquela noite: cheia de falhas, de faltas, de imprevisibilidade, de atrasos, de separações...

Confesso que relutei muito antes de aceitar essa nossa relação. Acreditava que queria outra coisa: um relacionamento tranquilo, com alguém mais simples e em que tudo fosse mais fácil. Sempre achei que minha felicidade fosse diretamente dependente de estabilidade e organização. E talvez tenha sido, mesmo. Também por isso nunca gostei de mudanças. Mas elas acontecem, mesmo comigo, apesar de mim.

E fui descobrindo que para cada falha há um sorriso. Para cada atraso, um beijo. Para cada separação, um novo encontro. E me vi cada vez mais feliz onde menos esperava: no meio dos imprevistos, da indefinição e da incerteza. Porque, de repente, o susto virou surpresa. O surto virou desejo. E todas as decisões tomadas sem antecedência, sem análise, sem estudo, deram certo. De repente, a sorte. Uma sorte inacreditável, coisa de livro, coisa de filme, coisa nossa. E quem vai lutar contra a sorte?

Eu poderia. Acho que ainda luto, ainda lutamos. Mas a luta faz parte, também. Os recuos que são como a maré se recolhendo para voltar numa onda maior. Não temo mais que a onda me derrube. Arrisco o passo sem saber se será adiante, se será tropeço, ou se será queda. Não importa. Cair não me apavora mais. Porque na nossa história o que é fim, de repente, se torna começo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Escolhas

Eu tenho problemas com o destino. Essa coisa de "maktub" (do árabe, "estava escrito") ou o que tiver que ser será. Acho que o que tiver que ser só será se fizermos alguma coisa, e o que estava escrito só vai valer se for lido. Eu costumo dizer que destino é uma desculpa para o comodismo e a desresponsabilização do sujeito frente à sua vida e suas escolhas. Porque, sejamos sinceros, escolher é difícil. Toda escolha implica em perda. E ninguém gosta de perder. Então adiamos, enrolamos, colocamos a responsabilidade no outro - e o destino é um dos outros favoritos.

O problema é que a vida parece muito com um jogo de xadrez. (Isso pode soar como um clichê brega, mas é uma ótima analogia, acreditem.) A cada passo dado, a cada peça movida, a cada escolha feita perdemos milhares de outras possibilidades. Dar um passo para a direita significa não dá-lo para a esquerda. Andar com uma peça significa não andar com todas as outras. Só que, para ganhar é preciso andar, mover-se, e às vezes até fazer um sacrifício. Só assim temos alguma chance de ganhar. E na vida é a mesma coisa. Pode-se dizer que enquanto não escolhemos continuamos com todas as opções disponíveis, e é verdade. Mas elas existem apenas como potencialidade. Sem escolher não perdemos, mas também não ganhamos. De que adianta poder mover qualquer peça em qualquer direção se você não o faz? O jogo continua e é a vez do outro, e agora as suas escolhas serão limitadas pela escolha dele. Que desculpa perfeita, não é? Se quem escolheu foi o outro, se quem diminuiu as possibilidades foi o destino, você pode passar o resto do tempo reclamando. Pode dizer que a escolha não foi sua. Mas a escolha de não escolher foi, sim, sua. Mesmo que não a tenha escolhido, ao não dar o passo que lhe cabia, você escolheu ficar parado. Escolheu não fazer nada. Escolheu deixar que o outro escolhesse.

Mas essa não é a única forma de fugir às escolhas. Eu, por exemplo, penso. Mas penso muito, muito mesmo. Estudo, analiso, pondero, meço, questiono, articulo, projeto, planejo... E aí o tempo também passa. Não fico parada para manter as opções em aberto e nem porque acho que não adianta lutar contra o todo-poderoso-destino. Mas ainda assim paraliso. Paraliso em pensamentos dentro de mim, como se eu pudesse viver na minha cabeça uma vida fora do tempo. E, depois, quando vejo, perdi a jogada. Não culpo o outro nem o destino. Culpo a mim. Mas é a mesma coisa. A culpa não dá margem à responsabilidade. A punição não recupera o tempo – nem a escolha – perdida.

Falamos muito da liberdade de escolha, mas o que ela representa? Acredito que ser livre para escolher é não estar preso à obrigação de ter (ou fazer) tudo. É apostar, arriscar, errar, acertar, escolher de novo. Porque uma escolha, de fato, diminui as possibilidades que existiam antes dela. Sem escolher, passamos a vida com essas mesmas possibilidades, que podem ser muitas, mas são sempre as mesmas. Só escolhendo surgem novas possibilidades. Só escolhendo abrimos espaço para a surpresa, para o novo, para o imprevisível. Para a vida.

domingo, 17 de abril de 2011

Resenha - "Coração tão branco"


Imprevisível, irrecuperável e irremediável

“(...) as mulheres sentem uma curiosidade sem mescla, sua mente é indagatória e bisbilhoteira mas também inconstante, não imaginam ou não antecipam a índole do que ignoram, do que pode vir a ser averiguado e do que pode vir a ser feito, não sabem que os atos se cometem sozinhos ou que uma só palavra os põe em marcha, precisam experimentar, não prevêem, talvez estejam dispostas a saber quase sempre, em princípio não temem nem suspeitam o que se possa contar-lhes, não se lembram que, depois de saber, às vezes tudo muda, inclusive a carne, ou a pele que se abre, ou algo que se rasga.”

“Coração tão branco” teve precisamente esse efeito em mim: tudo mudou, minha pele abriu-se e minha carne foi rasgada. Fui cortada pelo livro como podemos ser raras vezes na vida, justamente em momentos em que nos permitimos não imaginar, nem antecipar, nem temer. Em “Coração...” Javier trata de questões que acredito serem caras a qualquer um que se interesse pelas desventuras humanas que vivemos a cada dia. Ele fala da força das palavras e do silêncio, do saber e do fazer, do não-pensar, do medo, do escutar e do dizer, do que é uma vida a dois. Acima de qualquer coisa fala do que é imprevisível, irrecuperável e irremediável: a vida.
O enredo em si não foi o principal na minha leitura, é uma história muito interessante, que começa com um acontecimento impactante e desperta interesse no livro. Mas a partir daí o que me moveu palavra após palavra, o que me tirou o fôlego, cortou a carne e apertou o coração foi a escrita de Javier. O modo como ele faz um ensaio sobre o humano, sobre sentimentos, relacionamentos, vida e morte, mas sem em nenhum momento dar a sensação de teorização. Ele está ali. O que ele escreve é parte dele que foi rasgada para ser oferecida a quem lê. O tempo inteiro a palavra que me vinha ao ler ou comentar o livro era a mesma: vida.
Então, o que tenho de mais importante para dizer sobre "Coração tão branco" é isso: é um livro vivo. As palavras de Javier cortam, rasgam, dilaceram, e acho impossível que alguém as leia sem ficar marcado para sempre. Mas apesar disso - ou talvez exatamente por essa razão - é um livro que indico para qualquer um que queira se aventurar nas agruras da alma humana.

*Pra quem não conhece, o skoob é uma rede social de literatura incrível que já me rendeu muitas coisas boas na vida.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Não quero escapar.

É curioso pensar nas conseqüências dos nossos atos ou do que nos acontece quando o tempo decorrido nos afasta da situação. Gostamos de recordar e pensar no que não percebemos à época, imaginar que tal coisa poderia não ter acontecido, ou que tudo seria diferente se apenas tivéssemos sabido. Mas é sempre impossível saber onde terminará o passo ao levantar o pé. Só na linha de chegada é que descobrimos qual era o nosso destino, porque ele não existe sem a caminhada.

Falo disso porque era o que estava fazendo agora, antes de começar a escrever essa carta. Estava me lembrando do nosso reencontro virtual, três semanas depois da noite em que nos conhecemos. Foi uma conversa curta, em que me senti completamente segura, protegida do real dos seus olhos e do desejo. Apenas nós e as letras.

Como eu poderia saber? Naquele momento era impossível desconfiar que seriam justamente as palavras que me derrubariam de vez. Afinal, como prever que as suas palavras iriam inscrever-se em mim de tal forma que delas nasceriam novas palavras, e outras, e tantas, em mim, em você, atando-nos um ao outro cada vez mais? Quem diria que meses após aquele jantar, com aquele fim, sem nenhuma indicação de continuidade, eu estaria de madrugada escrevendo e endereçando a você palavras digitadas em uma tela de computador? E, mais que isso, que seriam palavras assim, íntimas, envergonhadas, que carregam em si um pedaço meu? E agora, o que será que acontecerá com essa carta? Nem eu sei que rumo ela tomará ou qual será o seu fim, pois escrevo por necessidade de te falar o que não sei dizer.

Não sei dizer porque continuo ao seu lado. Você roubou-me o que eu tinha de mais caro - minha adorada ilusão de controle - e ainda assim só o que eu quero é você. Ou talvez não seja "ainda assim", talvez seja "porque" você tomou a minha maior ilusão que te quero tanto. Talvez seja pelos motivos escritos, reescritos, inscritos, que me assaltam de forma tão intensa nos momentos mais inesperados. É engraçado, escrevi isso e imediatamente me vieram sua imagem e sua voz dizendo: "Mas, linda, você não acha que isso é porque ..." e dá uma explicação que não consigo imaginar. E é exatamente isso. Porque eu te lembro, te sonho, te quero, mas não sei te prever. E nem quero. Talvez fosse isso o que eu precisava te dizer. Que eu não sei. Que tenho mil motivos e nenhuma explicação. Que estar com você é uma escolha feita a cada dia, a cada vez. Quero dizer que ao seu lado caminho de olhos fechados. E dou o passo sem medo, sabendo que o tropeço também é movimento.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Destino das palavras

Eu sempre escrevo para o outro. Toda e qualquer palavra que escreva, mesmo as que ninguém nunca lê, só saem de mim se tiverem um destinatário.

Eu escrevia muito na infância e na adolescência: poesias bobas para os amores e longas cartas para os amigos - ou seja, todos escritos claramente endereçados. Até que por algum motivo parei de escrever. Não acho que tenha tido um motivo específico, várias coisas contribuíram e a escrita acabou posta de lado. Passei muitos anos sem escrever nada a não ser trabalhos acadêmicos.
Até que no final de 2009 tive que escrever algo que não era exatamente um trabalho acadêmico. Eu deveria escrever sobre o ano de trabalho na instituição em que faço formação em Psicanálise. Essa escrita me atormentou, pois não era algo teórico e muito menos burocrático. Eu deveria escrever sobre os efeitos daquele ano de trabalho em mim. O que eu escrevesse seria lido por mim na frente de toda a instituição, e esse era meu maior nervosismo: o que estaria eu endereçando àquelas pessoas?
No dia da leitura emocionei-me muito. Naquela página acabei dizendo mais de mim do que eu sabia conhecer. E a maior surpresa foi perceber muitos dos que me liam e escutavam emocionados também. Ouvir de outros que minha escrita os havia tocado era algo inesperado e estranho. A primeira frase do trabalho era uma citação de Clarice Lispector (não por acaso a mesma que estampa o cabeçalho desse blog) e uma colega que eu até então desconhecia veio dizer-me que tinha comprado o livro de onde tirei a frase, seu primeiro livro da Clarice, por causa do meu trabalho. Essa colega tornou-se uma grande amiga a quem endereço hoje muitas palavras.
Alguns meses depois entrei em uma rede social de literatura (skoob) e decidi tentar escrever uma resenha sobre o livro que estava lendo naquele momento. Estranhei o resultado da escrita, parecia muito pessoal e pouco didático. Novamente a surpresa: vários comentários e muitas pessoas dizendo que minhas palavras as levaram a ler tal livro. Percebi um pouco do que me assustava e incomodava: tinha medo da força das minhas próprias palavras, do modo como elas seriam lidas, da falta de controle que eu tenho sobre elas. Porque descobri que são elas que dizem de mim, e não o contrário.
Talvez eu tivesse ficado apenas escrevendo resenhas no skoob se não fosse uma carta. Ou melhor, duas. Nessa mesma época li o texto de alguém muito importante para mim, e tive vontade de escrever-lhe sobre o que senti lendo suas palavras. O que ouvi em retorno me marcou: "Foi o melhor presente que já recebi.". E não importa se foi de fato o melhor presente, o que ficou para mim foi que tinha sido importante dizer àquela pessoa os efeitos de sua escrita em mim. Algum tempo depois escrevi uma carta para essa mesma pessoa. Uma carta de verdade, sem nenhuma pretensão a não ser comunicar sentimentos. Novamente a surpresa com o retorno: "Isso aqui é o primeiro capítulo do seu livro." Ri, achei maluquice, mas aquilo ficava me voltando. Comecei a escrever muitas cartas, algumas enviadas e outras não, mas todas para alguém.
A partir daí não conseguia mais parar: cartas, textos, diálogos, palavras e mais palavras saindo de mim, e, então, esse blog. E hoje. Quando percebi que ainda só escrevo, e acho que sempre escreverei, para alguém, mesmo que o texto nunca receba um outro olhar. Escrevo para por para fora, muitas vezes para suportar as dificuldades, em outras para me suportar. Quando uso suportar aqui penso em aguentar mas também em dar suporte. Preciso do suporte das palavras, e do suporte do outro, para viver sem enlouquecer. Para sair da loucura e da solidão que me habitam. Escrevo para tocar e ser tocada, para fazer laço, criar nós, para existir fora de mim.
Em dois momentos quase desisti desse texto. Novamente a sensação de expor-me demasiado. Mas sigo em frente. Se o escrevi, foi porque precisei. E irei publicá-lo como agradecimento a quem me incentiva e me move, alimentando minha escrita mesmo sem saber - ou justamente porque não sabe.
E agradeço também a todos que me lêem, que comentam ou não, por permitirem, sendo destinatários das minhas palavras, que eu descubra novos destinos para a minha vida.




sexta-feira, 8 de abril de 2011

Poesia e Amor

André: Essa nossa história está te fazendo mal, não é?

Clara: Não, André. Quer dizer, às vezes me faz mal, principalmente quando você não está. Mas também me faz muito bem, mais do que qualquer outra coisa. O problema é que eu não entendo nada, e você sabe como isso me angustia. Eu não sei o que fazer. O seu silêncio grita comigo, fico morrendo de raiva, morrendo de tristeza, morrendo. Mas aí é só ouvir a sua voz que já começo a sorrir.

André: É porque sou muito engraçado.

Clara, sorrindo: Você é muito engraçado e sabe que adoro seu humor. Mas é muito mais que isso. É como se a sua voz despertasse meus sonhos e adormecesse meus pesadelos. Não importa quão mal eu esteja, ao te ouvir meu coração subitamente relaxa, se expande, e o pedaço onde te guardo - e que minutos antes eu tentava arrancar - ressurge maior do que nunca, ocupando todos os espaços.

André: Minha poeta linda.

Clara: Não é poesia. É amor.

André: E desde quando poesia e amor são coisas diferentes?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Clara: Que Eu?

Saber, entender, definir, organizar, explicar, resolver. Lógica, certeza, sentido, razão.

Se Clara tivesse que escolher dez palavras para representá-la essas seriam as escolhidas. Sem dúvida. Dúvida, aliás, é uma palavra que nunca entraria no vocabulário de Clara. Ela sabia de tudo, sempre. Às vezes ainda não sabia, mas logo iria saber. Clara sempre acreditou que quanto mais soubesse mais previsível seria sua vida. E previsibilidade era o que Clara mais sonhava.

Mas era um sonho muito controlado, que sonhar demais é perigoso. Clara sempre andou com os dois pés no chão: fazia o que devia fazer, gostava do que devia gostar, tudo nela era correto. Clara era a filha exemplar, a melhor aluna, a amiga perfeita, foi menina para namorar, depois mulher para casar, e seria a mãe ideal para os futuros filhos.

Tudo seguia de acordo com o planejamento, até que um dia parou de seguir. Esse é o problema de organizar tanto, quando alguma coisa sai do lugar o castelo inteiro despenca. E Clara descobriu-se, de repente, no meio de escombros. Durante o desabamento ela perdeu pessoas, sonhos, toda uma vida perfeita e exaustivamente planejada. Mas sua maior perda ela só percebeu muito tempo depois: quando caiu, Clara perdeu seu Eu, esse que ela tinha levado tantos anos cuidando para que nunca saísse do lugar.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Se eu tivesse medo não estaríamos aqui.

Era primeiro de abril e eu menti. “Se eu tivesse medo não estaríamos aqui.” Não achei que estivesse mentindo quando disse, e as mentiras muitas vezes são ditas assim, acreditando-se verdades, elas se confundem, se fundem, transformam-se uma na outra.

“Se eu tivesse medo não estaríamos aqui.” Mentira. É claro que tenho medo. Tenho medo do seu medo. Medo do acaso. Medo dos desencontros. Medo de sucumbir ao medo e não conseguir mais tecer a teia que te permite voltar. Mas o que temo mais que tudo é o não-dito. Porque aquilo que não é dito não permite circulação, não dá nós, não faz voltas. E precisamos de nós, de voltas, de palavras. É por elas que estamos aqui, não pela minha falta de medo.

“Se eu tivesse medo não estaríamos aqui.” A mentira que se aproxima da verdade quando acrescento uma palavra (e uma preposição): “Se eu tivesse medo de dizer não estaríamos aqui.” Só estamos aqui porque dizemos. Falamos dos medos, dos desejos, das dificuldades, das separações, dos encontros, dos recuos e das voltas. Falamos da vida, da minha, da sua, da que vivemos, da que não vivemos, da que gostaríamos de viver. Falamos banalidades e intelectualidades, falamos sobre cultura e humanidade, mentiras e verdades. Falamos. Dizemos. Escutamos. Com palavras e com silêncio.

“Se eu tivesse medo de dizer não estaríamos aqui.” Ainda assim uma mentira. Porque não é sem medo que digo, não é sem medo que fico, não é sem medo que te chamo de volta. Também não é apesar do medo. É com ele. Porque o medo é sinal da felicidade, assim como a angústia é sinal do desejo. Só tenho medo porque estou feliz.

“Tenho medo que você não volte.” Verdade. Verdade dita com medo, mas dita. Assim me apresento, me despeço, te endereço e chego mais perto da minha verdade.

“Tenho medo que você não volte.” Mas ainda assim te quero. Porque com você aprendo a cada dia, a cada vez, a cada voz, a viver com medo. E sabe o que descobri? O medo não é tão assustador assim. Viver sem medo – e sem você – me assusta muito mais.

domingo, 3 de abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Por que?

Tuas palavras que me escrevem. Teu silêncio (in)decifrável. Teus olhos de precipício. Tua boca que me envenena. E teu beijo que me cura. Tuas dúvidas. Tuas certezas. Tua extroversão superficial. E tua timidez profunda. Teu riso raro. Tua mão, sempre quente, em mim. O conforto dos teus braços. Tua inteligência sedutora. Tua genialidade óbvia. Teus mil talentos. Tuas músicas. Teus escritos. Tua voz que me enfeitiça. Teu canto que me encanta. Teu corpo que me desperta. Teu cabelo (des)arrumado. Tua barba. Teu jeito de puxar meu cabelo (que me desmancha inteira). Teus convites loucos (que eu sempre aceito). Teu sabor. Teus medos infantis. Tuas perguntas sem resposta. Teus livros. O ciúme dos teus outros tantos. O carinho com que beija meus olhos fechados. As maratonas culturais. Os olhares silenciosos. O jeito que me incentiva. A raiva orgulhosa dos meus textos. Tuas previsões delirantes. Tua fuga que sempre volta. Tua volta que sempre vai. Teu tempo, tão diferente do meu. Tua mentiras sinceras. E as verdades encobertas. Os nomes que não damos. A felicidade que vivemos. Os planos que não fazemos. Nosso passado que é presente. Nosso fim, que é (re)começo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Direitos iguais X Igualdade.

Dia desses estava escrevendo sobre relacionamentos quando me veio essa formulação, em relação a homens e mulheres: direitos iguais não é a mesma coisa que igualdade. O espaço que as mulheres tanto lutaram - e ainda lutam - para conquistar no mercado de trabalho - só para dar um exemplo-, e na sociedade de forma geral é realmente importantíssimo. Acho um absurdo, por exemplo, pensar que as mulheres ainda ganham menos que os homens ocupando o mesmo cargo. Mas acho que muitas vezes isso é confundido com um ideal inatingível de igualdade que só dificulta as coisas.
Em todas as culturas e sociedades das quais temos alguma notícia a diferença entre homens e mulheres sempre existiu. Em algumas, as mulheres tinham papéis mais importantes, na maioria, isso era algo dos homens, mas, em nenhuma delas, houve igualdade de lugares. Porque isso não é possível. Somos anatomicamente diferentes, somos estruturalmente diferentes em termos de linguagem, nosso modus operandi em relação ao desejo é diferente. Até nossa estrutura de neurose é, no mais das vezes, diferente.
A minha sensação observando, pensando e estudando as relações homem-mulher atualmente é que essa tentativa de igualdade torna tudo muito mais difícil e confuso. Os homens perderam o lugar de provedor e as mulheres sentem-se forçadas a ser quase super humanas para dar conta de tudo sozinhas. Ambos isolam-se cada vez mais, pela dificuldade de viver e desejar estando nesse lugar que é seu mas que ninguém consegue descobrir qual é.
Não escrevo isso querendo dizer que deveríamos voltar ao que era antes, que os homens trabalhem e as mulheres fiquem em casa, nada disso. Acho que o mais importante de todas essas conquistas sociais, da igualdade de direitos, é que as mulheres possam ocupar lugares diferentes - e, conseqüentemente, os homens também. Mas ambos tem de se submeter ao desejo que é para além deles. Há que se ocupar lugares, não importa quais, mas que cada um tenha o seu. Pois só ocupando o lugar que é nosso e, a partir desse lugar, desejando, é que é possível viver em uma sociedade com direitos iguais.

terça-feira, 29 de março de 2011

Tempo em poesia


A pedra desfez-se em grãos
de areia, e a ampulheta, cheia,
corria contra o tempo - em vão.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Para não me perder, perco.

O equilíbrio é a minha prisão. Cada atitude tomada deve ser exaustivamente analisada antes. Devo agir assim? Será que é o melhor a ser feito? Talvez devesse pensar um pouco mais... E nisso eu paro. Paralisada permaneço, no mesmo lugar, dentro de mim, enquanto o tempo segue do lado de fora. Paro na tentativa de organizar e não me perder. Mas sem perda, não há ganho. Presa dentro de mim, perco momentos. Perco a chance de ouvir a voz ao ligar às duas da manhã porque não consigo dormir, ou o sorriso que poderia receber se não demorasse tanto a me declarar. Perco assim meu desejo, escondo-o de mim. Tentando não me perder, não consigo me encontrar.

Mas, às vezes, me distraio, e aí uma ou outra palavra desequilibrada escapa. Rapidamente, então, tento organizar e classificar: digo que é loucura, que foi exagero, peço desculpas, e até esqueço o que falei. Tudo para não admitir que aquela sou eu. Que os sentimentos e as palavras me escapam, que são eles que dizem de mim e não o contrário. Quero esquecer que sou humana: enlouqueço, sinto ciúmes, medo, raiva, dor... Mas também sou meiga, sonhadora, e perdôo sem reservas quem tenho vontade. Sou aquela que se joga porque em algum lugar sabe que a felicidade só é vivida por quem vive. E sou, ainda, outra, que acha que depender é ser frágil, e vive apavorada com a possibilidade de que a vida e a morte levem, mais uma vez, quem lhe é imprescindível.

Crio, então, um campo de batalha, onde devo lutar comigo mesma pelo controle de mim. Mas nenhum lado ganha definitivamente, e quem perde a vida sou eu. Porque a luta real, a mais importante, é a de abrir mão da definição e do controle. É perder as certezas eternas e poder ser ao mesmo tempo aquela que grita e aquela que cala, dependendo do momento. E ser aquela que não sei quem sou, ou quem é, e que precisa do outro para dizê-la.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Imprevisível, indefinível, inesquecível.

Confesso que tenho um respeito pelas palavras que chega à margem do medo. As palavras que digo, quando as digo, perco-as, perco a posse imaginária que tenho sobre elas. Então muitas vezes calo. Por medo de soltar palavras e ter que aceitar que elas me atravessam, me marcam, passam por mim, mas não as retenho, seu destino é outro - o outro. É no ouvido do outro que minhas palavras ganham voz.

Quando as palavras saem de minha boca - ou dos meus dedos – para o mundo, seu destino é sempre imprevisível. O que você entende quando eu digo: imprevisível? Foi realmente isso que eu quis dizer? Certamente não. Há uma dissimetria inevitável, entre a intenção que tem aquele que diz e o significado dado por aquele que escuta, que nunca desaparece.

Essa dissimetria me angustia e, por isso, tento definir tudo, sempre. Adjetivos e advérbios em profusão, tentando dar conta daquilo que ouço, leio, penso, tentando amarrar as palavras para que elas não saiam por aí tomando outros rumos, novos caminhos, diferentes daquele que luto tanto para estabelecer.

Mas, por mais que eu tente, a vida não obedece. Quando menos espero sou tomada por algo que não consigo apreender ou definir. Todos os adjetivos e verbos, de todas as línguas do mundo, não são suficientes. Pode ser um encontro, uma obra de arte, as palavras de um outro, o amor. Seja o que for, nesses momentos agradeço por não ser tão eficiente em minhas amarrações. Porque são os momentos em que estou mais viva. Momentos imprevisíveis, indefiníveis, e, por isso mesmo, inesquecíveis.

sexta-feira, 18 de março de 2011

O amor é assim mesmo, dizem

"Ela amava o jornal inteiro que ele lia, o cachorro dele que latia, a toalha no chão do banheiro, o sapato no meio da sala, o sal de fruta, a pressa, o amigo chato, a noite besta, o dia-a-dia, mesmo quando ele estava mal humorado, deprimido, insuportável, impossível, mesmo quando ele não estava, nem telefonava, mesmo quando ele se atrasava, não vinha, faltava, não ouvia, mesmo assim ela amava, fazer o quê? O amor é assim mesmo, dizem. "

Adriana Falcão, "O homem que só tinha certezas e outras crônicas".

quinta-feira, 17 de março de 2011

Clara: labirinto


(...) então André perguntou no seu tom de voz que é quase música: Você gosta de ser assim tão bonita? Clara enrubesceu e sorriu, envergonhada. Olharam-se em silêncio, um silêncio feito de olhos sorridentes, esperança e sonhos. E, entre sorrisos e sonhos, André tocou o rosto de Clara. E a beijou.
E foi aí que tudo acabou e começou, no mesmo instante. Todas as certezas, planos, previsões e estudos de Clara estavam condenados. Ela sabia que nada mais daquilo importava. Ela queria surpresas. Queria desejar sem saber o porquê, sem nem saber o que queria até que fosse tarde demais e ela já o tivesse. Ela não queria mais encontrar a saída, alcançá-la em uma única curta travessia – sem desvios ou obstáculos. Ergueu as mãos e deixou o vento levar o mapa. Desistira do caminho mais curto. Queria continuar perdida enquanto pudesse.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Doces Memórias

(...) continuamos andando, lado a lado, até um trecho que tinha uma carcaça de barco no mar, você se lembra? Eu lembro porque foi aí que paramos, para ver o tal barco, e você me tocou. Você só encostou, segurando muito de leve o meu braço. Mas bastou isso. Em um segundo fui completamente tomada pelo desejo e o pânico que sempre o acompanha. Você sentou-se na mureta. E eu, de repente tão nervosa, fiquei em pé. Falamos de poesia. Eu disse que “Ou Isto Ou Aquilo” era meu livro favorito na infância. Você recitou um trecho. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Quais as chances de sair com um homem capaz de recitar Cecília Meireles? E, mais, a tua voz. Você recitava com aquela voz, e me olhava com aquele olhar. Pensei que fosse chorar, ou rir, alguma coisa ia acontecer. Então você me puxou, me abraçou, e me beijou. E me beijou. E segurou de leve meu cabelo, daquele jeito que você hoje sabe tão bem que me desmancha inteira. E era tudo bom. O beijo, a mão no cabelo, a voz no ouvido, os olhos nos olhos. Eu teria ido com você pra onde quer que fosse naquele momento. Mas nunca imaginaria que acabaríamos na praia que tantas vezes fui quando criança. Um lugar que me era cheio de lembranças infantis, de família, daquela felicidade doce e plena que experimentamos algumas vezes na infância e ficam guardadas para sempre em nós. Ao levar-me ali você, sem saber, ativou algumas das minhas mais doces memórias. E eu, sem saber, deixei que você se alojasse junto a elas.

terça-feira, 15 de março de 2011

Resenha: "Pedro Páramo", de Juan Rulfo.

Pedro Páramo é um livro tão lindo, tão incrível, que fico até com medo de escrever sobre ele e estragar a maestria de Juan Rulfo. Escrevi maestria porque o livro inteiro me pareceu uma música, as palavras todas no exato lugar, o ritmo perfeito. Mas é uma música diferente, feita de silêncio, de deserto, de ar parado. E aí é que residiu meu maior encantamento com o livro. Porque Pedro Páramo é um livro árido. Em certos momentos quase sentia o gosto da terra na boca, o barulho ensurdecedor do silêncio. Rulfo fala de solidão, morte, desgraça e tristeza, mas em nenhum momento o livro torna-se dramático ou pesado, pelo contrário. Parece que quanto mais ele falava de morte (ou através dos mortos) mais eu escutava vida. Quanto mais ele falava de maldade, mais eu escutava o que há de humano em cada um dos personagens.

Além disso, toda a narrativa não linear, a construção da história e o realismo irreal só tornaram o livro ainda mais encantador.

E para não me perder em palavras desnecessárias e seguir o estilo de Rulfo - onde menos sempre é mais - vou terminar dizendo apenas isso: leiam.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Resenha: "A Trégua", Mario Benedetti


Sabe aquele livro que você lê e sabe, ainda durante a leitura, que não será a mesma pessoa depois de ter lido aquilo? "A Trégua" foi um desses livros, um dos que chamo "livros da minha vida".

Pra já começar com o coração dando aquela parada centesimal em que é como se pulasse uma batida, a primeira data do diário de Martín é a data do meu aniversário. Eu já comecei então o livro com uma certa boa vontade, um querer-gostar. Ainda nas 10 primeiras páginas, e estando já quase conquistada pela linguagem de Benedetti, ele escreve:"Há uma espécie de reflexo automático nisso de falar da morte e em seguida olhar o relógio." Aí ele me ganhou de vez. Vivi tantas vezes essa situação, esse desconforto provocado ao se falar de morte, vi tantas pessoas olharem o relógio, ouvirem o telefone, lembrarem-se de um compromisso inadiável para o qual já estão atrasadas. É ou isso, ou o silêncio. E é assim mesmo, para a morte não há palavras. As que são usadas nunca são suficientes, por mais que se tente. E Benedetti tratou disso com uma sensibilidade única. Esse falar da morte sem tentar esgotá-la, falar também da vida e do amor sempre deixando presente uma dimensão em que sabe-se que as palavras não esgotam o que se vive.

"Comemos. Conversamos. Rimos. Fizemos amor. Tudo correu tão bem que não vale a pena escrevê-lo."
"Tudo passou tão rápido, foi tão natural, foi tão feliz, que não pude tomar nem uma só anotação mental. Quando se está no próprio foco da vida é impossível refletir."

E ainda assim, ainda dizendo isso, Benedetti escreve através de Martín cenas belíssimas. Declarações que renovam a crença no amor, momentos rotineiros que deixam gosto de felicidade, e uma simples palavra que derruba todo o castelo.
Tenho uma certa tendência à melancolia, essa coisa meio triste, meio bela, que dói mas vale a pena, e "A Trégua" é assim. Doído, triste, lindo, vivo.

"Nunca havia sido tão plenamente feliz como nesse momento, mas tinha a sensação dilacerante de que nunca mais voltaria a sê-lo, ao menos nesse grau, com essa intensidade. O cume é assim, claro que é assim. Além disso, estou certo de que o cume dura apenas um segundo, um breve segundo, uma centelha instantânea e sem direito à prorrogação."

E o que restou do livro em mim foi isso: essa centelha que acende, consome-se e desaparece no tempo de um instante, esse breve momento de trégua que dura apenas um segundo no relógio mas que continua acontecendo em nós até nosso apagamento final.