domingo, 19 de junho de 2011

Do lado de dentro.

Estávamos em pé, do lado de fora, encostados à parede do prédio, o abismo aos nossos pés. Todo o cenário era estranho, o prédio desconhecido, não era o meu e nenhum dos seus. Conversávamos. Não me lembro o conteúdo da conversa, mas falávamos de nós. Discutimos. Você falava crueldades, aquele tipo de coisa que só falamos a quem amamos; não somos cruéis com quem não nos importa. Eu, apavorada, chorava. Você quase ria. Ridícula. Foi disso que você me chamou. Acreditei e te odiei. Odiei que você não entendesse que era tudo por você. Odiei que você entendesse que era tudo por você, e por isso ficasse tão irritado. Odiei não entender nada e me exasperei quando você disse que também não entendia. Pausa. Silêncio. Suposta calma. Tento reconciliar – porque acho que não sei fazer outra coisa – e novamente a raiva. Tua e minha. Mais silêncio. Cansaço. Sozinha, sinto o desespero da espera. Certeza de que não sairemos dali vivos. O chão era muito pouco, qualquer passo em falso nos faria cair. Paraliso. Tenho medo de falar, pois falar é deslocar, e não quero morrer. Fico sozinha com meu medo, não arrisco aproximar-me de você. Mas te olho. Você sorri. Nós caímos.

8 comentários:

Ana SS disse...

Ai, Carina. Você escreve a cada dia melhor, mais bonito, mais doído, mais.

Rafael disse...

Lindo blog. Te seguindo e sempre estarei por aqui.
Dps passe em meu blog.

http://deletrasasentimentos.blogspot.com/

Lívia Azzi disse...

Conheço esses lados: amor e crueldade de braços dados...

Bravo, Carina!

Ayanne Sobral disse...

Que lindo, Carina.

Adorei o que li. Adorei o que senti ao ler.

Talita Prates disse...

"O vazio virou estrada."

É isso!

Viver é isso.

Mesmo quando não há final feliz.

Adorei, Cá!

Bjo, bjo,

Talita.

Brunno Lopez disse...

Descreveste um cenário de pseudo desespero ante as impossibilidades de criar certezas sobre sentimentos. E conseguiu. Até o final, ninguém espera de verdade que se salve. O precipício, o abismo, tudo parece real e hostil.
Apenas a coragem, o estímulo de amor que não tem volta, pode criar a estrada perfeita para passos eternos.

Dagoberto Silva disse...

"eu perco o chão, eu não sei as palavras, eu ando tão triste, eu ando pela estrada.."

Rui Pascoal disse...

Gosto do palpitar deste coração...

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