segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Impensável

“Eu sei muito bem o que você faria.”

Ele disse isso e eu ri. Nem eu sei o que faria. É claro que digo que sei, que agiria de tal modo, que nunca faria tal coisa, que sempre faço assim. Mas digo isso pra me acalmar. Gosto de fingir que antevejo exatamente como me comportarei em qualquer situação. Perco horas, dias, anos de vida assim: imaginando, prevendo, decidindo quem eu sou. Só que aí a vida chega, cheia de acasos e situações imprevisíveis. Ou situações que previ mil vezes, todos os detalhes como imaginei, tudo encaixando perfeitamente. E aí eu. Um eu que não sei que sou, vai lá e responde de forma inesperada. Uma palavra fora do script sai da minha boca. Um gesto impensável me escapa. Impensável: palavra das mais assustadoras pra mim. Eu que me escondo atrás de pensamentos, tentando não ter que me deparar com a minha própria imprevisibilidade. Porque eu sei que a vida é imprevisível e todo esse blá blá blá que eu mesma repito incansavelmente. Mas o que me assusta não é isso. Meu problema não é que aconteça algo fora do previsto, mas que eu reaja de um jeito diferente. Por exemplo, acaba de me ocorrer algo tão estranho que quase ignorei, mas vou escrever. Pensei: quanto mais tento prever e antecipar, mais me apavoro ao reagir de forma diferente. Sem padrões previamente estabelecidos, posso ter qualquer atitude que não estarei me contradizendo. Quase sinto alívio. Por quase um segundo. E aí penso que, para isso, terei que parar de pensar. E viver. Não o futuro ou o passado, não analisando o que já foi para preparar-me para o que virá, mas o agora. Chego a rir do clichê, “viver o presente”. Mas eu sou feita de clichês. E também não sou. Eu penso demais, fujo, me escondo, mas também ajo sem pensar, fico, me exponho. Eu sou todas essas contradições, e outras mil. E por isso vou agir de forma inesperada muitas vezes. E vou agir exatamente como ensaiei em outras tantas. Por isso, vou continuar pensando, planejando, ensaiando. Mas, a despeito de mim, às vezes, me pegarei vivendo.

8 comentários:

Alê disse...

Sou contradição o tenpo todo, mas tem alguém, que mesmo longe, 'me sabe', e não há mentira que cole


bjkas

Claudio! disse...

Das poucas vezes que comento. Mas comento agora pois somos assim. Clichê, piegas, melosos. Romanticos, pensativos. Improváveis. Então, me vejo por ai, nessas suas linhas, em outras palavras, em pensamentos.

Lívia Azzi disse...

E quanto será que há de vida e de pensamentos em nossas existências?

...

regina disse...

me vi em um monte de frases dai.

Gislãne Gonçalves disse...

me achei e me perdi nos teus escritos
:)
bjos

llesan disse...

Adoreei o texto, muito bom mesmo.

Abraços.

Vanessa Souza Moraes disse...

Lembrei de Legião Urbana:
mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira.

beijos!

Vilmar Barros de Oliveira disse...

Muito bom,
Na nossa vida sempre nos pegamos dizendo coisas que não gostaríamos de dizer, eu me policio muito, mas sempre acontece...
Beijo grande

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