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sábado, 26 de fevereiro de 2011

127 horas - o que restou.

"Temos que lutar sempre.”, “Tudo é possível." e “Você é capaz se acreditar.” são os temas principais de 127 horas, certo? Bem, pode-se até dizer isso, mas eu não concordo.

O filme mostra o protagonista, Aron, e os cinco dias que ele passa num canyon no meio do nada depois de cair e ficar com o braço preso por uma pedra. Durante todo o filme temos alguns indícios de como Aron vivia: nunca avisava a ninguém aonde ia, não atendia os telefonemas da mãe, e duas frases em cenas com a (ex)namorada me chamaram a atenção: em uma ela brinca perguntando qual era a combinação para entrar no coração dele. Aron responde: Se eu te dissesse teria que matá-la. (Claro que é uma brincadeira, mas são palavras e elas sempre dizem alguma coisa.) E a outra, ao terminar o namoro, em que a ex lhe diz: Você vai ficar muito só, Aron. Essas são cenas das quais Aron lembra-se durante os 5 dias preso. Aliás, tudo que ele lembra ou alucina tem a ver com o mesmo tema: auto-suficiência e solidão. Aron, até aquele momento, acreditava poder viver só e não precisar de ninguém.

Quando sai para a escalada mostrada no filme, ele, como sempre, não avisa a ninguém onde estará. Depois de algum tempo preso vem o pensamento inevitável: se soubessem onde ele estava possivelmente teria sido resgatado logo. A lição do filme poderia, então, ser a de que ninguém vive sozinho, não somos auto-suficientes, precisamos do outro. Mas ainda acho que não é disso que se trata. É claro que, para quem, como ele, era tão individualista, a situação que viveu, e tudo que percebeu, tem esse lado de mostrar a importância de passar pelo outro. No entanto, se não fosse tão acostumado a fazer tudo sozinho talvez Aron não tivesse sobrevivido.

O interessante do momento em que Aron pensa sobre esse resgate que não virá em conseqüência do fato que ele não disse à ninguém onde estaria é a constatação de que o modo que leva sua vida, suas ações, cada atitude, o levaram até aquela situação. Passou-me uma idéia de que mesmo com todo o acaso de escorregar, a pedra cair e prender seu braço ele ainda assim se responsabiliza por aquilo que lhe acontece. Aron, numa experiência limite, não fica preso à culpa nem se faz de vítima, lamenta, reclama. Ele toma para si a responsabilidade. Ele é como é, faz o que faz, e isso traz conseqüências, algumas boas, outras ruins. Ele assume que tudo que lhe acontece, por mais casual que seja, tem a ver com sua posição na vida. E me vem agora, o que não tinha ainda me ocorrido, que talvez por isso ele tenha conseguido permanecer são e salvar-se.

Por isso, muito mais do que a importância de não se isolar ou de acreditar-se capaz e alcançar seus objetivos, o que me restou do filme foi a responsabilização pelo que nos acontece: cada pequeno passo dado na vida leva a outro e disso fazemos nosso caminho, e mesmo o maior acaso terá sempre diferentes conseqüências dependendo da posição de quem o vive. O que nos cabe é, então, responsabilizarmo-nos por nossa vida, que engloba tanto nossas atitudes conscientes e inconscientes como nossa reação aquilo que nos acontece e não está sujeito ao nosso controle.

Espero que eu, como Aron, consiga submeter-me a isso.