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sábado, 16 de julho de 2011

Ou é ou não é.

“Você anda bem feliz, né?”
Li essa frase e me assustei. A felicidade me assusta. Sempre me assustou. Temo tudo que não pode ser analisado, entendido e explicado, e a felicidade não se presta à medição alguma. Ocorre-me agora que o amor também não. No entanto, eu me considero uma pessoa romântica até demais. Mas se for sincera, sincera mesmo, aquela verdade nossa que nem conhecemos direito, teria que dizer que tenho também medo do amor. E, o que é pior, não tenho só medo que dê errado: tenho medo que dê certo, também. Aliás, certo e errado são conceitos que tem me tomado muito nos últimos dias. Porque eu acho que faço tudo errado, principalmente quando amo. Aceito o que não devia, falo o que não podia, calo o que teria que dizer. Mas todos esses “devia, podia, teria” são racionalizações. São idéias e ideais que uso como se fossem tijolos e cimento necessários para construir. Um muro ou uma casa, não sei. Não sei nem se construo para me proteger ou para me prender. Acho que as duas coisas. Construo pensando que estou me protegendo, quando na verdade estou me prendendo. Afinal, proteger-me do que? Da dor, do fim, do não-saber? Mas há vida sem isso? Fujo da falta de sentido tanto quanto do excesso de sentimento. E escrevo muita besteira tentando entender e explicar. Excesso de sentimento, desde quando isso existe? Não se ama muito ou pouco. Ou ama ou não ama, e amando há todas as constantes inconstâncias de sentimento: dentro do amor cabe quase tudo, e percebo agora que cabe o medo também. O medo que mata o amor é o que está fora dele. Do lado de dentro, o medo é só mais um dos milhares de sentimentos que fazem do amor, amor. Sentimentos ruins, bons, certos e errados. Não há quantificação nem qualificação para o amor. Ou é ou não é. É. Amo. Por isso faço tudo errado, por amor. E, por amor, tudo dá certo.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Escrevo para dizer o que não sei falar.

Gostamos de recordar e pensar no que não percebemos à época, imaginar que tal coisa poderia não ter acontecido, ou que tudo seria diferente se apenas tivéssemos sabido. Mas é sempre impossível saber onde terminará o passo ao levantar o pé. Só na linha de chegada é que descobrimos qual era o nosso destino, porque ele não existe sem a caminhada.

Falo disso porque era o que estava fazendo agora, antes de começar a te escrever essa carta. Estava me lembrando do nosso reencontro virtual, o primeiro contato depois da noite em que nos conhecemos. Foi uma conversa curta, em que me senti completamente segura, protegida do real dos seus olhos e do desejo. Apenas nós e as letras.

Como eu poderia saber? Naquele momento era impossível desconfiar que seriam justamente as palavras que me derrubariam de vez. Afinal, como prever que as suas palavras iriam inscrever-se em mim de tal forma que delas nasceriam novas palavras, e outras, e tantas, em mim, em você, atando-nos um ao outro cada vez mais? Quem diria que mais de um ano após aquele jantar, com aquele fim, sem nenhuma indicação de continuidade, eu estaria de madrugada escrevendo e endereçando a você palavras digitadas em uma tela de computador? E, mais que isso, que seriam palavras assim, íntimas, envergonhadas, que carregam em si um pedaço meu? E agora, o que será que acontecerá com essa carta? Nem eu sei que rumo ela tomará ou qual será o seu fim, pois escrevo por necessidade de te dizer o que não sei falar.

Tento me lembrar para poder explicar. Mas não sei dizer porque continuo ao seu lado. Você roubou-me o que eu tinha de mais caro - minha adorada ilusão de controle - e ainda assim só o que eu quero é você. Ou talvez não seja "ainda assim", talvez seja "porque" você tomou a minha maior ilusão que te quero tanto. Talvez seja pelos motivos escritos, reescritos, inscritos, que me assaltam de forma tão intensa nos momentos mais inesperados. É engraçado, escrevi isso e imediatamente me vieram sua imagem e sua voz dizendo: "Mas você não acha que isso é porque ..." e dá uma explicação que não consigo imaginar. E é exatamente isso. Porque eu te lembro, te sonho, te desejo, mas não sei te prever. E nem quero. Talvez fosse isso o que eu precisava te dizer. Que eu não sei. Que tenho mil motivos e nenhuma explicação. Que estar com você é uma escolha feita a cada dia, a cada vez. Ao seu lado caminho de olhos fechados, e dou o próximo passo sem medo. Porque na nossa história o tropeço é sempre um novo começo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A medida do impossível

“- Vamos pegar uma mesa? O pessoal já está descendo.”

E se eu tivesse dito não? E se respondesse que preferia esperar ali pelos outros? E se o “pessoal” realmente descesse logo, e não duas horas depois? Peguei-me fazendo essas perguntas como se fossem possíveis. Como se tudo já não tivesse acontecido do exato jeito que foi. É tanto acaso, tanto não saber, que me assusto. A displicência com a qual vivi esse e os primeiros encontros me dá medo. E se não existisse facebook? E se não estivéssemos online no mesmo momento? Tantos “e se” que parece quase um milagre termos nos encontrado.

Milagre ou não, o fato é que, um ano depois, estamos aqui. Um ano depois, minha vida não tem nada a ver com a vida que eu levava na noite em que nos conhecemos. E boa parte disso é por sua causa. Não discorde, não negue, apenas leia. O nosso encontro mudou a minha vida não só pelo amor, pela paixão, pelos beijos e todas essas coisas boas e felizes que vivemos. Mas porque com você aprendo a ver a vida de um jeito mais leve. Na primeira carta que te escrevi comparei-me a uma pedra, e você ao vento, e disse que só o que eu queria era admirar teu vôo. Mas o que aconteceu foi melhor. Você me ensinou a voar. Não tenho ainda grande autonomia de vôo, não me arrisco a dar rasantes, mas já consigo flutuar um pouco. Volta e meia caio, afinal uma pedra ainda é uma pedra, mesmo quando desfeita em grãos de areia. A cada queda me desfaço um pouco mais, e logo corro tentando me colar e pensar-me inteira mais uma vez. Mas quando me acredito inteira não vôo, a completude fictícia pesa demais. Penso que é necessária uma medida exata para que eu não me desfaça completamente, mas ainda assim consiga voar. Pensar em medida me remete à matemática, então tento calcular, mas não há razão que resulte na medida do impossível. E essa medida do impossível é a mesma que uso tentando controlar tudo que sinto por e com você.

Porque muitas vezes acredito que posso mesmo controlar. Que conseguirei dosar como e quando sentir amor, raiva, desejo, carinho... Mas a verdade é que não controlo nada. Sinto tudo ao mesmo tempo, mudo de idéia e me contradigo mil vezes. Nada com você é seguro, garantido, tranqüilo. Segurança, certeza e garantia eram as minhas palavras. Tudo em mim é (ou era) muito sério, pesado, medido corretamente e arrumado milimetricamente. Agora não consigo mais ter certeza da pontuação que usei na frase anterior. Minhas interrogações só aumentam, os pontos finais tornam-se reticências, e as vírgulas tentam desesperadamente pausar o ritmo acelerado do coração antes que ele exclame à exaustão.

E no meio, e ao centro, de toda essa desarrumação está você. Não foram só as minhas pilhas de livros que nunca mais ficaram organizadas depois que te conheci. Eu nunca mais consegui me organizar. E o mais estranho disso tudo é que eu hoje gosto de entrar em casa e ver livros no chão, fora do lugar. Gosto de me pegar fazendo e pensando coisas que nunca considerara antes. Divirto-me até com meu destempero que me enerva, mas que vira graça no momento que você sorri. Quando você ri das minhas loucuras, me quebra. Quando você implica com a minha mania de organização, me derruba. Quando você puxa meu cabelo, me desmancha. Desde a primeira frase que te ouvi falar você me desconcertou. Você ainda me desconcerta. Aliás, acho que é isso: você me desconcerta tanto, que acabou me consertando.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

"o que nos aproxima está além do sentido"

- Não consigo nem olhar pro lado.

No dia seguinte, acordei com torcicolo.

Essa poderia ser uma piada, e de certa forma é, mas aconteceu de fato. Há poucas semanas, comentando um texto, escrevi que nosso corpo, mais do que carne, é feito de palavras. Parece que meu corpo quis corroborar meu dito e ainda me mostrar que o “não conseguir olhar pro lado” metafórico, o das palavras, dói muito mais do que o torcicolo.

Algumas pessoas podem pensar que foi uma coincidência, ou que estou inventando, ou ainda minimizar, mas o efeito dessa tradução que meu corpo faz das palavras que digo me assusta, e muito. Se meu próprio corpo às vezes não entende o que eu quis dizer, quem vai entender? Aliás, o que significa essa expressão eu quis dizer? O que eu quis dizer não existe, o que vale é o que eu disse. Temos a tendência de contemporizar tudo: “o que vale é a intenção”, “eu não quis magoar”, “eu não sabia”. Não importa. Não faz diferença se não foi bem isso que eu quis dizer. Foi o que eu disse.

E, além disso, mesmo que eu explique perfeitamente o que queria dizer, nunca sei como o outro vai entender. Só sei que não será exatamente como pensei. Não há correspondência plena entra o que se diz e o que o outro escuta. Cada um é marcado pelas palavras de forma diferente. Ao ouvir a palavra diferença eu evoco alguns significados, você certamente diria outros. Não é porque você não me entendeu bem e preciso dizer de outra forma, é porque não há entendimento possível. Mas não acreditamos nisso, e seguimos nos comunicando assim, tentando o tempo todo nos entender, nos explicar, achando que esse é o grande objetivo da linguagem, que é a compreensão que nos une. Não é.

As palavras não nos ligam ao outro melhor se o entendimento for maior. O que faz laço, o que nos aproxima, está além do sentido. É o que a sua palavra desperta em mim, o que a minha letra causa em você. E isso não temos como controlar, por melhor que expliquemos. Só distraídos do entendimento é que dizemos o que mais nos marca.

Vejo agora como me desviei do que achava que seria esse texto. O corpo ficou lá em cima, as palavras me escreveram e me levaram para outro caminho, e eu segui. E não vou reescrever, em outro momento talvez escreva sobre a força das palavras sobre o corpo. Hoje, escrevi sobre a força das palavras em mim.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Além do Saber

- O problema é que você sabe demais.

Essa frase pura, destacada do contexto, pode significar, assim como toda frase, mil coisas. Poderia estar se referindo, por exemplo, a alguém muito qualificado com dificuldades de se colocar no mercado de trabalho. Ou a uma criança dispersa na sala de aula porque sua capacidade e conhecimento estão muito além do que é exigido ali. Poderia, ainda, fazer parte de um discurso cada vez mais comum de que uma mulher inteligente e de opinião forte assusta os homens.

Sobre cada uma dessas situações eu teria algo objetivo a dizer: concordar, discordar, fazer ressalvas. Opinar. Eu tenho opinião para tudo, ou se não tenho acho que deveria ter. Eu sei muita coisa e sou completamente apegada a esse saber. Acho que tudo deve ser feito depois de ser entendido, medido, etiquetado e organizado. Sou mestre em definir, classificar, organizar. Eu acredito que posso prever o que vai acontecer, como vou me comportar, como o outro vai agir. Muitas vezes eu acerto, mas na verdade nem é preciso acertar. Porque as expectativas são assim: você as cria e elas vão ser correspondidas ou não. São apenas duas opções, ambas previstas anteriormente. Indo bem ou mal, já sei o que vai acontecer.

Só que a verdade é que viver não tem nada a ver com saber. Eu sei de um monte de coisas, sei como resolver problemas, entendo tudo de tudo e continuo sem perceber o principal: que o saber não vale de nada nas coisas que realmente importam. O que nos move, o desejo, o amor, essas coisas vem de outro lugar. São coisas que caem sobre nós, tempestades que nos fazem voar se nos soltarmos, mas derrubam se tentamos nos segurar. E eu me seguro a maior parte do tempo. Seguro-me em teorias, previsões, planos. Luto a todo custo para que nada aconteça fora do que previ. Fecho a porta, as janelas, me sufoco, presa num ambiente de ar morno, morto, parado, rarefeito e viciado. Tudo por medo. E eu sei disso. Mas, mais uma vez, o saber não me adianta de nada.

Preciso me soltar. Preciso pular e cair até que o ar puro infle meus pulmões e eu consiga voar. O mais paradoxal – e real - é que sei que um dos pensamentos que me segura é o que diz: há uma chance de que você não planeje nada e tudo aconteça de um jeito ainda mais maravilhoso do que quando você previu que daria certo.

Quando escrevo é um dos poucos momentos em que me entrego a não saber. Quando escrevo sou marcada por outra coisa, por algo que me constitui, mas que eu não possuo. É além do saber. Releio esse texto agora, e sinto vergonha, acho que escrevi várias besteiras e que pareço louca. E acho que foi para isso que ele foi escrito. Para que eu fosse, mais uma vez, marcada pela verdade da minha neurose que tanto me segura. Para que eu pudesse sentir, como senti ao escrever o parágrafo acima, que a vida é maior do que eu, e isso é uma coisa boa. Para que as palavras escritas circulem, voem e sussurrem no meu ouvido: pode pular. Estaremos aqui.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Mosaico

- Já estou vendo que você é perigosa.

Quase um ano depois percebo quanto tempo e energia gastei tentando provar a ele – e a mim – minha resposta: não sou perigosa. Sou estável, confiável, leal, segura. Numa analogia que usei muitas vezes em relação a nós me descrevo como pedra. Mas de que pedra falo? Uma pedra enorme, parada, pesada, quase montanha, intransponível? Ou uma pedra de rio, que apesar de presa no mesmo lugar a cada dia muda, sendo lixada e moldada pela força das águas? Ou ainda uma pedrinha daquelas que resultam de britadeira no asfalto, tão pequena e leve que voa com o vento quase como se vento fosse?

Sempre julguei que era a maior, imutável, e por isso não oferecia perigo nenhum: o que podemos prever não nos assusta. A repetição acalma; por pior que seja, sabemos como lidar com ela. Mas hoje, quando me vejo, não me reconheço. Quando me penso, não me entendo. Quando me sinto, não me explico. Acho que poderia ser qualquer uma dessas pedras. Acho que sou todas. E me assusto. Porque não sei se sou perigosa. Perigosa para quem? Para o outro? Se nem eu sei quem sou, quem é esse eu que me habita, que corpo é esse que me pertence, mas não me comporta, como posso garantir ao outro que sou estável? Não posso. Não tenho mais garantias, nem certezas, e elas me faltam enormemente. A sensação é de que elas quando partiram me despedaçaram. E agora sou esse monte de pedaços, fragmentos de histórias que não se juntam mais harmoniosamente. Tento me colar e acabo criando um mosaico de mim.

Porque acho que preciso dar garantias ao outro? Porque acredito que, sem elas, ele vai embora. Porque ainda reluto em aceitar que é o desejo, e não o saber que une as pessoas. Porque eu preciso de garantias. Ou costumava precisar. Aí está meu maior medo, o grande perigo que represento: eu mudo. Mudo para não emudecer. E quando falo, as garantias se acabam. Quando abro a boca, ou mexo os dedos, não sei o que vai sair. Ao começar a escrever essas linhas, não sei onde vou parar. Não posso garantir que você vai gostar do que ler. Pode ser uma história triste ou pode ser uma declaração de amor. Qual delas te assusta mais?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O susto virou surpresa

(...)

É curioso pensar nas conseqüências dos nossos atos ou do que nos acontece quando o tempo decorrido nos afasta da situação. Ao escrever agora sobre aquela noite tive uma percepção completamente diferente da que me tomou quando ela era, ainda, o suposto último encontro, e mesmo quando, duas semanas depois, deixou de sê-lo.

Lembrava-me de um encontro cheio de poréns, atrapalhado, esquisito, mesmo que tenhamos conseguido rir da situação e não levá-la tão a sério. E achava que isso era uma coisa ruim, que um encontro desses significaria, mais do que qualquer coisa, o fim. Hoje, no entanto, acho que foi justamente esse emperrado que nos levou a um novo encontro. Não houve um fim propriamente dito naquela noite. Mas será mesmo que veio daí o desejo de um novo encontro? Não há como saber. Mas o que percebi é que desde então a história que construímos se parece muito com aquela noite: cheia de falhas, de faltas, de imprevisibilidade, de atrasos, de separações...

Confesso que relutei muito antes de aceitar essa nossa relação. Acreditava que queria outra coisa: um relacionamento tranquilo, com alguém mais simples e em que tudo fosse mais fácil. Sempre achei que minha felicidade fosse diretamente dependente de estabilidade e organização. E talvez tenha sido, mesmo. Também por isso nunca gostei de mudanças. Mas elas acontecem, mesmo comigo, apesar de mim.

E fui descobrindo que para cada falha há um sorriso. Para cada atraso, um beijo. Para cada separação, um novo encontro. E me vi cada vez mais feliz onde menos esperava: no meio dos imprevistos, da indefinição e da incerteza. Porque, de repente, o susto virou surpresa. O surto virou desejo. E todas as decisões tomadas sem antecedência, sem análise, sem estudo, deram certo. De repente, a sorte. Uma sorte inacreditável, coisa de livro, coisa de filme, coisa nossa. E quem vai lutar contra a sorte?

Eu poderia. Acho que ainda luto, ainda lutamos. Mas a luta faz parte, também. Os recuos que são como a maré se recolhendo para voltar numa onda maior. Não temo mais que a onda me derrube. Arrisco o passo sem saber se será adiante, se será tropeço, ou se será queda. Não importa. Cair não me apavora mais. Porque na nossa história o que é fim, de repente, se torna começo.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Não quero escapar.

É curioso pensar nas conseqüências dos nossos atos ou do que nos acontece quando o tempo decorrido nos afasta da situação. Gostamos de recordar e pensar no que não percebemos à época, imaginar que tal coisa poderia não ter acontecido, ou que tudo seria diferente se apenas tivéssemos sabido. Mas é sempre impossível saber onde terminará o passo ao levantar o pé. Só na linha de chegada é que descobrimos qual era o nosso destino, porque ele não existe sem a caminhada.

Falo disso porque era o que estava fazendo agora, antes de começar a escrever essa carta. Estava me lembrando do nosso reencontro virtual, três semanas depois da noite em que nos conhecemos. Foi uma conversa curta, em que me senti completamente segura, protegida do real dos seus olhos e do desejo. Apenas nós e as letras.

Como eu poderia saber? Naquele momento era impossível desconfiar que seriam justamente as palavras que me derrubariam de vez. Afinal, como prever que as suas palavras iriam inscrever-se em mim de tal forma que delas nasceriam novas palavras, e outras, e tantas, em mim, em você, atando-nos um ao outro cada vez mais? Quem diria que meses após aquele jantar, com aquele fim, sem nenhuma indicação de continuidade, eu estaria de madrugada escrevendo e endereçando a você palavras digitadas em uma tela de computador? E, mais que isso, que seriam palavras assim, íntimas, envergonhadas, que carregam em si um pedaço meu? E agora, o que será que acontecerá com essa carta? Nem eu sei que rumo ela tomará ou qual será o seu fim, pois escrevo por necessidade de te falar o que não sei dizer.

Não sei dizer porque continuo ao seu lado. Você roubou-me o que eu tinha de mais caro - minha adorada ilusão de controle - e ainda assim só o que eu quero é você. Ou talvez não seja "ainda assim", talvez seja "porque" você tomou a minha maior ilusão que te quero tanto. Talvez seja pelos motivos escritos, reescritos, inscritos, que me assaltam de forma tão intensa nos momentos mais inesperados. É engraçado, escrevi isso e imediatamente me vieram sua imagem e sua voz dizendo: "Mas, linda, você não acha que isso é porque ..." e dá uma explicação que não consigo imaginar. E é exatamente isso. Porque eu te lembro, te sonho, te quero, mas não sei te prever. E nem quero. Talvez fosse isso o que eu precisava te dizer. Que eu não sei. Que tenho mil motivos e nenhuma explicação. Que estar com você é uma escolha feita a cada dia, a cada vez. Quero dizer que ao seu lado caminho de olhos fechados. E dou o passo sem medo, sabendo que o tropeço também é movimento.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Doces Memórias

(...) continuamos andando, lado a lado, até um trecho que tinha uma carcaça de barco no mar, você se lembra? Eu lembro porque foi aí que paramos, para ver o tal barco, e você me tocou. Você só encostou, segurando muito de leve o meu braço. Mas bastou isso. Em um segundo fui completamente tomada pelo desejo e o pânico que sempre o acompanha. Você sentou-se na mureta. E eu, de repente tão nervosa, fiquei em pé. Falamos de poesia. Eu disse que “Ou Isto Ou Aquilo” era meu livro favorito na infância. Você recitou um trecho. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo. Quais as chances de sair com um homem capaz de recitar Cecília Meireles? E, mais, a tua voz. Você recitava com aquela voz, e me olhava com aquele olhar. Pensei que fosse chorar, ou rir, alguma coisa ia acontecer. Então você me puxou, me abraçou, e me beijou. E me beijou. E segurou de leve meu cabelo, daquele jeito que você hoje sabe tão bem que me desmancha inteira. E era tudo bom. O beijo, a mão no cabelo, a voz no ouvido, os olhos nos olhos. Eu teria ido com você pra onde quer que fosse naquele momento. Mas nunca imaginaria que acabaríamos na praia que tantas vezes fui quando criança. Um lugar que me era cheio de lembranças infantis, de família, daquela felicidade doce e plena que experimentamos algumas vezes na infância e ficam guardadas para sempre em nós. Ao levar-me ali você, sem saber, ativou algumas das minhas mais doces memórias. E eu, sem saber, deixei que você se alojasse junto a elas.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

(des)canso

Tenho medo de muita coisa. Eu posso parecer forte, segura, bem-resolvida e analisada, mas é só fachada, uma armadura que uso para me proteger. Na verdade tenho muito medo. Medo de falar, de sentir... Mais que tudo eu temo me perder e não saber como voltar a esse eu que suponho que sou. Só que tem momentos que esse medo todo cansa. É exaustivo lutar tanto contra essa entrega, essa paixão, esse amor, essa coisa que você me causa e que nem nome consigo dar. Mas temo, muito, me dar assim: indefinida, imperfeita, errada. E sinto que às vezes até as minhas palavras se cansam e me escapam pela boca para descansar dentro de ti. E eu só queria poder fazer o mesmo. Escapar do meu medo, do meu controle, de mim, e descansar, tranquila, naquele côncavo entre teu braço e teu peito, que é, pra mim, o lugar mais perfeito do mundo.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu sou tua.


Às vezes sinto uma vontade desesperadora de fugir também. De sair antes de você, para não ter que lidar com o enorme vazio que sei que você vai deixar. Mas meu desejo é mais do que o que eu quero. Eu sou para além de mim. Eu sou tua. Então espero, me entrego, e coleciono os nossos momentos, para continuar te escrevendo quando inevitavelmente você se for.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A Pedra e o Vento

Eu sempre senti em você algo que escapa. Algo fugidio, como se você tivesse asas, sempre buscando alçar novos vôos, inquieto e curioso demais pra permanecer muito tempo no mesmo lugar, com as mesmas idéias, com as mesmas pessoas. Como se o ar que te faz vivo só pudesse ser respirado em movimento, como se você respirasse vento. A sensação é que o mundo que você vive é muito mais bonito e rico do que o das outras pessoas, do que o meu, por exemplo. Mas não é isso. Você não vive num mundo só seu, louco e irreal, a mágica está em aceitar a realidade que existe, submetendo-se ao fato de que ela está sempre em transformação, sem tentar fixar todo acontecimento e sentimento, sem dar peso excessivo à coisa alguma. O novo é que, quando surge, sempre parece – e é - mágico.

Surpreendo-me com o fato de você me atrair tanto. Eu não sou leve. Eu não vôo. Eu sempre fui pedra. Eu quero que o mundo pare, que nada mude, ou que só mude com autorização prévia, pesquisada e documentada. Em teoria, eu detestaria vento. Eu sempre detestei. Mas o vento que você traz me encanta, encantamento que vem da sua própria inconstância. Às vezes ele chega como tempestade, que derruba minhas certezas, embaralha meus conceitos e traz em seu sopro novidades lindas e assustadoras. Em outras é uma brisa de fim de tarde, na beira da praia, que traz um respingo de água pra refrescar as idéias, e o cheiro gostoso de mar que me faz relaxar e me entregar. Ou pode ser ainda um furacão, que me envolve e me cega para qualquer coisa que não seja meu desejo por você, desejo de ser tua, de ser arrastada pelo teu vento, mesmo que isso deixe marcas, talvez porque isso deixe marcas.

O que resta em mim, quando você passa ventando, é uma pedra um pouco mais leve. Teu vento leva um pouco do meu peso. Fica mais possível me deslocar sem rumo certo. Então penso que faria sentido que, mesmo tendo medo, eu quisesse te prender, segurar seu vôo do meu lado, pra não me afastar dessa sensação de liberdade e vida que você me traz. Mas te prender é te perder. E me vejo subitamente assaltada pela necessidade não de te segurar, mas de escrever, de me declarar e te declamar, de admirar e velar seu vôo.

*Essa é a primeira de uma série de cartas entitulada "Cartas ao Vento".

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Perco-me em você

Quanto mais palavras lhe entrego menos sei se sou eu que as dou, ou elas que me dão. Seja o que for, é dado assim, meio sem jeito, quase recuando, sem saber e quase sem querer, que esse é o jeito que é possível me dar. Porque ao dar, palavras e a mim, eu perco o controle que ilusoriamente tento manter. Perco a possibilidade de fazer sozinha uma música que não é mais só minha .Perco minha certeza na sua dúvida. Perco-me em você.