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domingo, 19 de junho de 2011

Do lado de dentro.

Estávamos em pé, do lado de fora, encostados à parede do prédio, o abismo aos nossos pés. Todo o cenário era estranho, o prédio desconhecido, não era o meu e nenhum dos seus. Conversávamos. Não me lembro o conteúdo da conversa, mas falávamos de nós. Discutimos. Você falava crueldades, aquele tipo de coisa que só falamos a quem amamos; não somos cruéis com quem não nos importa. Eu, apavorada, chorava. Você quase ria. Ridícula. Foi disso que você me chamou. Acreditei e te odiei. Odiei que você não entendesse que era tudo por você. Odiei que você entendesse que era tudo por você, e por isso ficasse tão irritado. Odiei não entender nada e me exasperei quando você disse que também não entendia. Pausa. Silêncio. Suposta calma. Tento reconciliar – porque acho que não sei fazer outra coisa – e novamente a raiva. Tua e minha. Mais silêncio. Cansaço. Sozinha, sinto o desespero da espera. Certeza de que não sairemos dali vivos. O chão era muito pouco, qualquer passo em falso nos faria cair. Paraliso. Tenho medo de falar, pois falar é deslocar, e não quero morrer. Fico sozinha com meu medo, não arrisco aproximar-me de você. Mas te olho. Você sorri. Nós caímos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Por que?

Tuas palavras que me escrevem. Teu silêncio (in)decifrável. Teus olhos de precipício. Tua boca que me envenena. E teu beijo que me cura. Tuas dúvidas. Tuas certezas. Tua extroversão superficial. E tua timidez profunda. Teu riso raro. Tua mão, sempre quente, em mim. O conforto dos teus braços. Tua inteligência sedutora. Tua genialidade óbvia. Teus mil talentos. Tuas músicas. Teus escritos. Tua voz que me enfeitiça. Teu canto que me encanta. Teu corpo que me desperta. Teu cabelo (des)arrumado. Tua barba. Teu jeito de puxar meu cabelo (que me desmancha inteira). Teus convites loucos (que eu sempre aceito). Teu sabor. Teus medos infantis. Tuas perguntas sem resposta. Teus livros. O ciúme dos teus outros tantos. O carinho com que beija meus olhos fechados. As maratonas culturais. Os olhares silenciosos. O jeito que me incentiva. A raiva orgulhosa dos meus textos. Tuas previsões delirantes. Tua fuga que sempre volta. Tua volta que sempre vai. Teu tempo, tão diferente do meu. Tua mentiras sinceras. E as verdades encobertas. Os nomes que não damos. A felicidade que vivemos. Os planos que não fazemos. Nosso passado que é presente. Nosso fim, que é (re)começo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Momentos que não nos pertencem, mas nos constituem.

Encontraram-se na escada do prédio. Os dias que haviam passado afastados pareciam empurrá-los um para dentro do outro.
Sorriam - e o mundo inteiro cabia naquele sorriso. Qualquer palavra seria pouco perto daquele sorriso. Ainda assim tentaram falar:
Nossa, você está bonita demais, disse ele.
Nossa, quanta saudade, disse ela.
Beijaram-se brevemente e continuaram a subir as escadas, trocando palavras desnecessárias até chegar ao apartamento.
Entraram. A porta, enfim, fechada, e o sorriso, ainda, aberto.
Então o beijo.
Se no sorriso cabia o mundo, naquele beijo cabiam apenas os dois.
Mas "apenas" os dois não era pouco, pelo contrário. Conviviam naquele beijo todos os encontros e desencontros, concordâncias e desentendimentos, partidas e retornos, risos e lágrimas... Ali partilhavam tudo e nada, porque estavam ali inteiros - ou com todos os seus pedaços - e nada mais importava. Apenas viveram e entregaram-se um ao outro e aquilo que os movia para além de seu controle. Amaram.

Anos depois ela lembraria-se dessa cena com o carinho que lembramos daqueles momentos que não nos pertencem, mas nos constituem, tornam-se parte de nós, parte a ser partilhada novamente quando, se o acaso quiser e a razão permitir, enfim, nos distrairmos.

terça-feira, 8 de março de 2011

Vento, me leva?

A dor, que é como afogar-se, e ao mesmo tempo como se o corpo todo estivesse em chamas, mas nem a água apaga o fogo e nem o fogo seca a água. Só o ar vai fugindo do peito, mais e mais, até não sobrar nenhum respiro, nenhum suspiro. Piro, fogo, que arde os olhos cheios de tanta água. E a dor não passa, devia passar, tinha que escoar, se esvair, queda d´àgua, mas sou eu que caio. Eu que estou me esvaindo, saindo de mim, o coração destroçado, os pedaços náufragos nesse mar revolto que nasceu no meu peito. Perdi o comando. E agora, apenas tripulante desse navio fantasma, sigo até a próxima ilha. Vou aonde o vento me levar.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Calo por medo, falo por pavor.

As palavras me assustam. As palavras que digo, quando as digo, perco-as. Perco a posse imaginária que tenho sobre elas. Saem da minha boca - ou dos meus dedos – para o mundo, e seu destino é sempre imprevisível. Por isso muitas vezes calo. Por medo de dar minhas palavras ao outro e ter que aceitar que elas me atravessam, me marcam, passam por mim, mas não as retenho, seu destino é outro - o outro. Temo porque sei que não há explicação que explique tudo, não há certeza de ser entendida – aliás, o que há é a certeza de não sê-la. Porque nem eu entendo. Mas há também a necessidade de falar e passar por esse outro, pois só assim há alguma chance de comunicação e de não perder-me em solidão. Sou, então, isso: calo por medo, falo por pavor.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu sou tua.


Às vezes sinto uma vontade desesperadora de fugir também. De sair antes de você, para não ter que lidar com o enorme vazio que sei que você vai deixar. Mas meu desejo é mais do que o que eu quero. Eu sou para além de mim. Eu sou tua. Então espero, me entrego, e coleciono os nossos momentos, para continuar te escrevendo quando inevitavelmente você se for.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pedaços.


Não me dou inteira porque não sou inteira. Sou partida, quebrada, rasgada. Sou os pedaços que me fazem, e não posso juntar os cacos sozinha.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Há um homem, há uma mulher.


Há um homem. Ele me ama, ele me odeia. Por ele eu faria tudo e não faço nada. Ele tem mil perguntas e eu nenhuma resposta. Eu tenho mil reclamações e ele nenhuma solução. Ele me despreza, me ignora, me agarra, me convoca. Eu grito, choro, fujo, obedeço. Ele me manda embora, eu vou. Eu o chamo, ele vem. Ele puxa, eu me desmancho. Eu encosto, ele se desfaz. Ele me beija, eu me perco. Ele me deseja, eu me entrego. Há um homem, há uma mulher.

*Texto provocado e inspirado pelo livro "Uma Mulher" do genial Péter Esterházy.