- Não consigo nem olhar pro lado.
Essa poderia ser uma piada, e de certa forma é, mas aconteceu de fato. Há poucas semanas, comentando um texto, escrevi que nosso corpo, mais do que carne, é feito de palavras. Parece que meu corpo quis corroborar meu dito e ainda me mostrar que o “não conseguir olhar pro lado” metafórico, o das palavras, dói muito mais do que o torcicolo.
Algumas pessoas podem pensar que foi uma coincidência, ou que estou inventando, ou ainda minimizar, mas o efeito dessa tradução que meu corpo faz das palavras que digo me assusta, e muito. Se meu próprio corpo às vezes não entende o que eu quis dizer, quem vai entender? Aliás, o que significa essa expressão eu quis dizer? O que eu quis dizer não existe, o que vale é o que eu disse. Temos a tendência de contemporizar tudo: “o que vale é a intenção”, “eu não quis magoar”, “eu não sabia”. Não importa. Não faz diferença se não foi bem isso que eu quis dizer. Foi o que eu disse.
E, além disso, mesmo que eu explique perfeitamente o que queria dizer, nunca sei como o outro vai entender. Só sei que não será exatamente como pensei. Não há correspondência plena entra o que se diz e o que o outro escuta. Cada um é marcado pelas palavras de forma diferente. Ao ouvir a palavra diferença eu evoco alguns significados, você certamente diria outros. Não é porque você não me entendeu bem e preciso dizer de outra forma, é porque não há entendimento possível. Mas não acreditamos nisso, e seguimos nos comunicando assim, tentando o tempo todo nos entender, nos explicar, achando que esse é o grande objetivo da linguagem, que é a compreensão que nos une. Não é.
As palavras não nos ligam ao outro melhor se o entendimento for maior. O que faz laço, o que nos aproxima, está além do sentido. É o que a sua palavra desperta em mim, o que a minha letra causa em você. E isso não temos como controlar, por melhor que expliquemos. Só distraídos do entendimento é que dizemos o que mais nos marca.
Vejo agora como me desviei do que achava que seria esse texto. O corpo ficou lá em cima, as palavras me escreveram e me levaram para outro caminho, e eu segui. E não vou reescrever, em outro momento talvez escreva sobre a força das palavras sobre o corpo. Hoje, escrevi sobre a força das palavras em mim.
- O problema é que você sabe demais.
Sobre cada uma dessas situações eu teria algo objetivo a dizer: concordar, discordar, fazer ressalvas. Opinar. Eu tenho opinião para tudo, ou se não tenho acho que deveria ter. Eu sei muita coisa e sou completamente apegada a esse saber. Acho que tudo deve ser feito depois de ser entendido, medido, etiquetado e organizado. Sou mestre em definir, classificar, organizar. Eu acredito que posso prever o que vai acontecer, como vou me comportar, como o outro vai agir. Muitas vezes eu acerto, mas na verdade nem é preciso acertar. Porque as expectativas são assim: você as cria e elas vão ser correspondidas ou não. São apenas duas opções, ambas previstas anteriormente. Indo bem ou mal, já sei o que vai acontecer.
Só que a verdade é que viver não tem nada a ver com saber. Eu sei de um monte de coisas, sei como resolver problemas, entendo tudo de tudo e continuo sem perceber o principal: que o saber não vale de nada nas coisas que realmente importam. O que nos move, o desejo, o amor, essas coisas vem de outro lugar. São coisas que caem sobre nós, tempestades que nos fazem voar se nos soltarmos, mas derrubam se tentamos nos segurar. E eu me seguro a maior parte do tempo. Seguro-me em teorias, previsões, planos. Luto a todo custo para que nada aconteça fora do que previ. Fecho a porta, as janelas, me sufoco, presa num ambiente de ar morno, morto, parado, rarefeito e viciado. Tudo por medo. E eu sei disso. Mas, mais uma vez, o saber não me adianta de nada.
Preciso me soltar. Preciso pular e cair até que o ar puro infle meus pulmões e eu consiga voar. O mais paradoxal – e real - é que sei que um dos pensamentos que me segura é o que diz: há uma chance de que você não planeje nada e tudo aconteça de um jeito ainda mais maravilhoso do que quando você previu que daria certo.
- Já estou vendo que você é perigosa.
Quase um ano depois percebo quanto tempo e energia gastei tentando provar a ele – e a mim – minha resposta: não sou perigosa. Sou estável, confiável, leal, segura. Numa analogia que usei muitas vezes em relação a nós me descrevo como pedra. Mas de que pedra falo? Uma pedra enorme, parada, pesada, quase montanha, intransponível? Ou uma pedra de rio, que apesar de presa no mesmo lugar a cada dia muda, sendo lixada e moldada pela força das águas? Ou ainda uma pedrinha daquelas que resultam de britadeira no asfalto, tão pequena e leve que voa com o vento quase como se vento fosse?
Sempre julguei que era a maior, imutável, e por isso não oferecia perigo nenhum: o que podemos prever não nos assusta. A repetição acalma; por pior que seja, sabemos como lidar com ela. Mas hoje, quando me vejo, não me reconheço. Quando me penso, não me entendo. Quando me sinto, não me explico. Acho que poderia ser qualquer uma dessas pedras. Acho que sou todas. E me assusto. Porque não sei se sou perigosa. Perigosa para quem? Para o outro? Se nem eu sei quem sou, quem é esse eu que me habita, que corpo é esse que me pertence, mas não me comporta, como posso garantir ao outro que sou estável? Não posso. Não tenho mais garantias, nem certezas, e elas me faltam enormemente. A sensação é de que elas quando partiram me despedaçaram. E agora sou esse monte de pedaços, fragmentos de histórias que não se juntam mais harmoniosamente. Tento me colar e acabo criando um mosaico de mim.
Porque acho que preciso dar garantias ao outro? Porque acredito que, sem elas, ele vai embora. Porque ainda reluto em aceitar que é o desejo, e não o saber que une as pessoas. Porque eu preciso de garantias. Ou costumava precisar. Aí está meu maior medo, o grande perigo que represento: eu mudo. Mudo para não emudecer. E quando falo, as garantias se acabam. Quando abro a boca, ou mexo os dedos, não sei o que vai sair. Ao começar a escrever essas linhas, não sei onde vou parar. Não posso garantir que você vai gostar do que ler. Pode ser uma história triste ou pode ser uma declaração de amor. Qual delas te assusta mais?
(...)
É curioso pensar nas conseqüências dos nossos atos ou do que nos acontece quando o tempo decorrido nos afasta da situação. Ao escrever agora sobre aquela noite tive uma percepção completamente diferente da que me tomou quando ela era, ainda, o suposto último encontro, e mesmo quando, duas semanas depois, deixou de sê-lo.
Lembrava-me de um encontro cheio de poréns, atrapalhado, esquisito, mesmo que tenhamos conseguido rir da situação e não levá-la tão a sério. E achava que isso era uma coisa ruim, que um encontro desses significaria, mais do que qualquer coisa, o fim. Hoje, no entanto, acho que foi justamente esse emperrado que nos levou a um novo encontro. Não houve um fim propriamente dito naquela noite. Mas será mesmo que veio daí o desejo de um novo encontro? Não há como saber. Mas o que percebi é que desde então a história que construímos se parece muito com aquela noite: cheia de falhas, de faltas, de imprevisibilidade, de atrasos, de separações...
Confesso que relutei muito antes de aceitar essa nossa relação. Acreditava que queria outra coisa: um relacionamento tranquilo, com alguém mais simples e em que tudo fosse mais fácil. Sempre achei que minha felicidade fosse diretamente dependente de estabilidade e organização. E talvez tenha sido, mesmo. Também por isso nunca gostei de mudanças. Mas elas acontecem, mesmo comigo, apesar de mim.
E fui descobrindo que para cada falha há um sorriso. Para cada atraso, um beijo. Para cada separação, um novo encontro. E me vi cada vez mais feliz onde menos esperava: no meio dos imprevistos, da indefinição e da incerteza. Porque, de repente, o susto virou surpresa. O surto virou desejo. E todas as decisões tomadas sem antecedência, sem análise, sem estudo, deram certo. De repente, a sorte. Uma sorte inacreditável, coisa de livro, coisa de filme, coisa nossa. E quem vai lutar contra a sorte?
Eu poderia. Acho que ainda luto, ainda lutamos. Mas a luta faz parte, também. Os recuos que são como a maré se recolhendo para voltar numa onda maior. Não temo mais que a onda me derrube. Arrisco o passo sem saber se será adiante, se será tropeço, ou se será queda. Não importa. Cair não me apavora mais. Porque na nossa história o que é fim, de repente, se torna começo.
Saber, entender, definir, organizar, explicar, resolver. Lógica, certeza, sentido, razão.
Se Clara tivesse que escolher dez palavras para representá-la essas seriam as escolhidas. Sem dúvida. Dúvida, aliás, é uma palavra que nunca entraria no vocabulário de Clara. Ela sabia de tudo, sempre. Às vezes ainda não sabia, mas logo iria saber. Clara sempre acreditou que quanto mais soubesse mais previsível seria sua vida. E previsibilidade era o que Clara mais sonhava.
Mas era um sonho muito controlado, que sonhar demais é perigoso. Clara sempre andou com os dois pés no chão: fazia o que devia fazer, gostava do que devia gostar, tudo nela era correto. Clara era a filha exemplar, a melhor aluna, a amiga perfeita, foi menina para namorar, depois mulher para casar, e seria a mãe ideal para os futuros filhos.
Tudo seguia de acordo com o planejamento, até que um dia parou de seguir. Esse é o problema de organizar tanto, quando alguma coisa sai do lugar o castelo inteiro despenca. E Clara descobriu-se, de repente, no meio de escombros. Durante o desabamento ela perdeu pessoas, sonhos, toda uma vida perfeita e exaustivamente planejada. Mas sua maior perda ela só percebeu muito tempo depois: quando caiu, Clara perdeu seu Eu, esse que ela tinha levado tantos anos cuidando para que nunca saísse do lugar.

(...)
André: - Não sei de onde você tira essas idéias, Clara.
Clara: - Do mesmo lugar que você tira as suas, do pensamento. A diferença é que seus pensamentos são sempre muito vivos, mesmo sua melancolia tem um traço de vida que encanta e nos faz ter menos medo de abrir a porta.
André: - Isso não é verdade, você só acha isso porque está apaixonada por mim.
Clara: - Eu acho isso porque é a única explicação que tenho para a porta escancarada com a qual te recebo. Porque preciso sempre de explicações, sentidos, motivos, preciso organizar tudo que penso, sinto e faço. Eu normalmente só falo depois de saber exatamente o que falar e como falar. Mas contigo nada disso importa, minhas palavras bonitas, secas e corretas desaparecem e quando dou por mim só falto morrer de vergonha das repetidas e melosas palavras de amor que me acreditava incapaz de pronunciar.
